Pelos caminhos de Portugal
Um dos prazeres mais tardios que conheci foi o de ouvir música ao conduzir. Então se for música clássica, o efeito é mágico. Conduzindo pelas estradas deste país, é interessante associar algumas realidades típicas do Verão português a algumas composições, ao mesmo tempo que se tem a divina sensação de viajar numa espécie de nave intocável onde no conforto do ar condicionado se pode observar e analisar, como um astronauta, o que se passa ao nosso redor.- Ouvir Eine Kleine Nachtmusic de Mozart enquanto os incêndios florestais se revelam no horizonte, que podia muito bem ser de um belo azul, mas que com o hábito vamos cedendo à ideia da inevitabilidade de uma relação directamente proporcional entre temperaturas superiores a 30º C e a existência de fogos. Isto apesar das promessas anuais de maior prevenção, maior fiscalização e mais meios de combate, às quais já poucos dão ouvidos. Alegremente vamos perdendo uma das nossas principais riquezas.
- Uma 5ª Sinfonia de Beethoven enquanto se observa a invasão de emigrantes, visivelmente deslocados no país de onde partiram para outra vida, que se calhar acabou por não ser muito mais bem sucedida do que a que poderiam ter cá. Acabam por se tornar uma espécie híbrida, que não pertence inteiramente nem a Portugal nem ao país de destino, e por vezes trazem os filhos já nascidos no estrangeiro, que se devem perguntar a si próprios o que raio vêem os pais neste país para cá voltarem constantemente.
- Escutando uma Carmina Burana de Orff ao passar junto às ruínas de grandes empresas encerradas, umas que implodiram por escassez de competitividade, outras que apanharam o TGV da deslocalização. Ó fortuna…
- Uma visita a Lisboa ao som de Pomp & Circumstance de Elgar combina perfeitamente com a noção que se fica da cidade, como um misto de megalomania espelhado na sede da CGD ou no Parque das Nações, e de decadência que se nos apresenta através da toxicodependência, dos sem-abrigo e da prostituição infantil, entre o saudosismo dos Descobrimentos e a degradação da zona histórica.
- Calmamente percorrendo uma estrada nacional num passeio nocturno, três veículos vão-se aproximando e ultrapassam-me a uma velocidade de 120 km/h ou mesmo superior. Ora digam lá se isto não merece uma Abertura do William Tell de Rossini? E então se um deles se despistar alguns quilómetros à frente, ponho logo a tocar o Quebra-Nozes de Tchaikovsky.
- Um Danúbio Azul de Strauss, ao ver as praias a abarrotar de pessoas, tomando um banho cancerígeno de sol ao mesmo tempo que se movimentam com dificuldade no exíguo espaço que resta entre as toalhas. Um calor tórrido, onde o que apetece é perdermo-nos numa qualquer zona rural, plena de espaços verdes, ou então passar alguns dias num parque aventura, a jogar paintball ou a deslizar suspensos numa corda a 30 metros de altura, mas não, desloca-se o país em peso para o caro, monótono, insuportavelmente populoso e decepcionante Algarve, e, para cúmulo, dá-se-lhe o nome de ‘férias’. Porém, como tudo tem um lado positivo, quanto mais gente se decidir por esse destino, mais desocupados e atractivos ficam os locais que interessam.
- Por fim, imaginemos o grande Aeroporto Internacional da Ota, com pistas a perder de vista, repleto de aviões a aterrar e a descolar, ao som de, quem mais, Wagner na sua Cavalgada das Valquírias. Tocaria naquelas paredes e tirava uma fotografia a mim próprio com o seguinte comentário: “Aqui jazem os meus impostos, que poderiam servir para uma vida melhor na minha reforma, mas que, em vez disso, foram transformados em alguns metros quadrados de postos de check-in”.
Fim da viagem. Não me interpretem mal porque, apesar de tudo, gosto bastante de Portugal. Portugal, ao que parece, é que não gosta muito de si próprio.

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