sexta-feira, novembro 17, 2006

Alquimia / Go get it


Ser rico é talvez dos desejos mais consensuais desde que existe troca indirecta. Terá seguramente um significado diferente para cada um mas passa sempre por um certo sentido de liberação. Seja por acabar com dependências, compromissos e equilíbrios frágeis ou com as incertezas e dúvidas quanto ao futuro, seja porque permite realizar todos os sonhos e partir para a aventura sem restrições, ter muito dinheiro é visto não só como uma excelente solução meio para ultrapassar os inúmeros obstáculos que a vida nos vai colocando mas como a solução. Claro que se encontram muitas mentes tacanhas que são capazes de recorrer aos exemplos mais improváveis de casos de pessoas que, na posse de uma fortuna, a esbanjaram de uma forma ou de outra e ficaram arruinadas para justificar um profundo receio interior de mudança. Se eu vivesse sempre preocupado com o pior cenário possível fechava-me num caixão à espera da morte. Caso não confiássemos nas nossas próprias capacidades de lidar com as situações, viveríamos numa insegurança quase paralisante.

E como definir o que é ser rico, de que montantes se poderá estar a falar? Para muita gente, 1 ou 2 milhões de euros já será mais do que suficiente, dado que já garante, sem necessidade de outros rendimentos, a auto-subsistência para o resto da vida permitindo mesmo uma série de extravagâncias e luxos. Mas tendo em conta que há vivendas que ultrapassam esses valores e automóveis que andam próximo disso, e que possuir um jacto particular é um símbolo comum de status (mesmo quando alugar é muito mais rentável), pode-se dizer que um mínimo de 50 a 100 milhões de euros em dinheiro disponível (excluindo, portanto, bens) é uma boa fasquia para se considerar alguém como rico, sem margem para dúvidas.

Falta agora explorar qual a forma de lá chegar. Encontrar o caminho certo que conduz ao nosso objectivo é sempre difícil. É o que distingue entre os milhões de pessoas que têm ideias e projectos e a meia dúzia que os concretiza. Então como enriquecer, excluindo os casos atípicos de chorudas heranças e prémios de jogos? Existem vários livros no mercado que abordam o tema versando quer o sucesso na carreira quer o triunfo no mundo empresarial como meio de também ser bem sucedido financeiramente. Entre os dois mais recentes best-sellers, apreciei mais Como Enriquecer de Donald Trump em relação a Vencer de Jack Welch. Trump tem uma exposição mais pragmática, propõe um conjunto de regras que fazem sentido e são de fácil aplicação na vida real e, fora a sua paranóia com os apertos de mão, seria alguém com quem não me importaria de trabalhar. Já Welch, sobejamente conhecido pela sua brilhante actuação como gestor da General Electric é mais uma pessoa de crenças, ligeiramente dogmático, e mesmo tendo boas ideias que de facto resultam, por vezes não explica claramente os fundamentos que servem de base ao seu raciocínio. No entanto, ambos são óptimos livros que apresentam conselhos bem úteis em qualquer circunstância. Estes autores centram muito as atenções na gestão de empresas, demonstrando a importância de, enquanto empresários, nos devemos rodear das pessoas certas, saber reconhecer um bom negócio e atrair as melhores parcerias comerciais. Acontece que quem quer ser rico não quer, necessariamente, criar uma empresa.

Desta feita restam duas hipóteses – poupar e/ou investir. Poupar parece soar mal nos dias que correm. Todos querem a sua ‘máquina’ com GPS e DVD, o último grito em telemóveis, a viagem às Caraíbas ou a roupa de marca. Quem assistiu à evolução do ‘temos de juntar para um carro’ e do ‘tenho x a render no banco’ dos anos 80 para o aparente desafogo financeiro actual viu um país a virar do avesso. Ir contra a corrente e controlar os gastos, abrindo lugar a alguma poupança é crucial para obter algum conforto num futuro cada vez mais ameaçador. Para quem pensar que mais vale usufruir de uma pequena fortuna aos 50 anos do que nunca, é possível, com disciplina e alguma visão de investimento amealhar um montante razoável. Supondo que alguém hoje com 30 começa a poupar 150 € mensais, aumentando anualmente este montante de acordo com a inflação e investindo este valor numa aplicação que renda 10% anuais (o que não é difícil com um pouco de aconselhamento a nível de acções e fundos e um acompanhamento constante do investimento) com capitalização de juros, chega-se aos 50 com mais de 100.000 €! Quem investe directamente em acções e sabe o que faz pode enriquecer ainda mais rapidamente, nomeadamente pela aquisição no momento certo (e venda também no momento certo) de títulos de empresas de forte crescimento e sólida situação financeira.

A propósito desta questão, não queria deixar de mencionar a forma cada vez mais descarada com que os bancos encontram forma de tentar enganar os pacóvios apresentando produtos que parecem excelentes mas que não passam de um presente envenenado. Temos, por exemplo, o caso do BES a oferecer 6% a 3 meses, 6% anuais entenda-se, como se isso fosse uma aplicação sem paralelo no panorama actual. Só para ver o ridículo da proposta que apresentam, eu investi recentemente numa acção que valorizou 8% num só dia! Claro que isto muito dificilmente poderia acontecer na anémica bolsa portuguesa. Os anúncios dos bancos são, em geral, insípidos e desinteressantes, tentativas patéticas de demonstração de algum sentido de humor mas sempre agrilhoados a uma necessidade de manter uma certa imagem de instituição respeitável. São todavia entidades que há muito perderam a forte credibilidade que ainda julgam ter, pelo menos junto dos clientes. Filmar alguns sketches do atendimento nos balcões por esse país fora teria certamente mais piada que o novo programa do Gato Fedorento. Clientes descontentes e agastados com as comissões cobradas sem motivo, os arredondamentos nas taxas de juro, promessas de spreads que afinal só vigoram por um curto período de tempo e as constantes cláusulas e excepções que tudo justificam surgem irados ou até aos gritos com os pobres funcionários apanhados no meio do fogo cruzado. Os lucros mirabolantes, as taxas reduzidíssimas de imposto efectivamente pago e as ameaças de cobrar comissões até pelas operações em ATM, um dos processos que mais permitiu aos bancos reduzir os gastos com o pessoal são verdadeiros insultos à inteligência num país financeiramente oprimido. Agora sentem-se vitimizados pelas alterações que o governo pretende (finalmente) introduzir no regime fiscal aplicado ao sector bancário e ponderam mesmo agravar o custo do dinheiro. Perante este chorrilho de indecências, penso que urge a necessidade de criação de uma associação nacional de clientes que defenda os interesses dos associados junto da banca para que cada cliente individual possa fazer ouvir a sua voz quando por algum motivo se sentir lesado por qualquer política comercial menos transparente.

Ser ambicioso não significa querer ser mais esperto que ninguém, é tomar as rédeas da nossa própria vida, sem hesitações ou complexos, tendo por fundo a lúcida percepção de que o nosso tempo é curto e que se queremos de facto gozar todos os prazeres que este planeta nos pode proporcionar, quanto mais livres de espartilhos financeiros, melhor. Não concebo outra forma de viver senão no constante auto-aperfeiçoamento, movendo-nos perante a sociedade em partes iguais de estilo e substância, aplicando o nosso talento em algo, seja o que for, que nos faça sentir completamente integrados e unos com os nossos objectivos. Só nesta dinâmica, um misto de segurança, tranquilidade, ousadia e persistência podemos atingir o entusiasmo e a joie de vivre, o estado máximo de plenitude que o nosso estatuto de ser humano nos concede.

quinta-feira, julho 13, 2006

Vacine-se


Raiva, fúria e desejo de vingança consomem demasiada energia e torna as pessoas cegas, apenas se prejudicando a si próprias. Que o mundo é tudo menos justo, que na vida facilmente se acumulam frustrações e sensações de insatisfação e se encontram situações que nunca deveriam existir, todos sabemos, mas cada um de nós deve ser parte da solução e não do problema. Senão de que valem os milhões de anos de evolução de nos conduziram de meros seres guiados pelo instinto a uma forma de vida inteligente e com vontade própria?

Zidane teve 18 anos de carreira enquanto atleta profissional e cedo ascendeu ao mais elevado nível de competição. No seu anunciado último jogo, num culminar perfeito de êxitos ao participar na final de um Campeonato do Mundo, porque supostamente ouviu uns insultos à sua família decide agredir um jogador da equipa adversária? Como jogador de futebol, não terá ele ouvido mais injúrias e linguagem de vão de escada que qualquer um? Um insulto à mãe e irmã de alguém só magoaria realmente se de facto quem insulta as conhecesse e soubesse algo de pessoal, mas tenho a certeza que Materazzi conhece tão bem a mãe e irmã de Zidane como eu. Zidane diz que não se arrepende e acho bem, porque eu também nunca me arrependo de nada – o que cada um decide está decidido, de acordo com o seu livre-arbítrio e bom senso – mas ele devia ter um treino mental que nunca o levasse a chegar àquele ponto.

A violência física só é justificável num contexto de auto-defesa e apenas na medida do indispensável. É tão fácil responder a um insulto e sair da situação de forma airosa, seja fazendo um comentário lateral ou indirecto que deixe o interlocutor confuso seja gozando com as palavras que ele utiliza, que só vem confirmar a minha teoria sobre a relação inversamente proporcional entre o QI e a queda para o desporto.

quarta-feira, julho 05, 2006

Highway to hell


Conduzir em Portugal já foi uma actividade de maior risco do que é hoje, mas ainda custa a assimilar a existência de três ou quatro mortes diárias por acidentes de automóvel, a que acrescem ainda os inválidos e as vítimas “colaterais” como a família e os amigos, já para não falar em custos hospitalares e laborais que acabam por se reflectir na vida de todos nós. Dado que a técnica de condução de um automóvel é bastante simples e tendo em conta que se trata de um bem que neste país implica um forte investimento, surpreende esta elevada sinistralidade, pelo menos para alguém que analisa a situação do exterior. Claro que quem circula diariamente nas estradas portuguesas e está minimamente atento à condução que se pratica sabe perfeitamente quais os motivos que levam a esta realidade.

De seguida, com base nas situações que tenho oportunidade de testemunhar enquanto condutor, apresento uma classificação dos condutores por atitudes, embora muitas vezes se sobreponham várias em simultâneo. Assim temos:

- Os “Colas”, raça conhecida por gostar de se aproximar a menos de um metro do veículo que segue à sua frente, mesmo que seja em plena auto-estrada; neste caso apresentam a variante de sinalizarem com luzes caso o condutor da frente esteja na faixa esquerda. Comportamento manifestamente irritante, ao ponto de assistir uma vez a uma cena em que o condutor da frente travou a fundo para saber se o veículo de trás se safava de colisão certa. Claro que esta tendência de circular demasiado próximo tem consequências, e mais tarde ou mais cedo haverá uma distracção e o inevitável embate. Também não são invulgares os choques em cadeia resultantes desta postura agressiva.

- Os “Cortantes”, para quem as linhas marcadas no pavimento não tem qualquer significado. Assim, em curva, mesmo naquelas de reduzida visibilidade, invadem sem apelo nem agravo faixa alheia obrigando os condutores que queiram preservar o seu espelho e pintura a desviarem-se para a berma. Nas rotundas com mais de uma faixa, estes indígenas partem da direita, atravessam para a faixa central sem dizer água vai e na saída que desejam tomar também não dizem água vem retirando-se da faixa central como se a linha intermitente não indicasse separação de faixas. Ironia do destino, os acidentes geralmente acontecem quando um “Cortante” encontra outro, o que não deixa de ter um sabor a justiça poética.

- Os “Interceptantes”, que pela sua atitude de interferência na condução de quem é “interceptado” são dos que pessoalmente mais abomino. A sua actuação consiste em ultrapassar e colocarem-se à nossa frente obrigando-nos a abrandar ou até a travar sob pena de embate. Em auto-estrada, sou um condutor que procura manter uma distância de segurança relativamente ao veículo da frente, mas de vez em quando aparecem estas melgas com imenso espaço para voltarem à faixa direita mas que depois de ultrapassarem se colocam poucos metros à frente na faixa em que seguimos, como que a transmitir, infantilmente, “estás a ver, eu ultrapassei-te”. O cúmulo da estupidez acontece quando somos ultrapassados de um forma quase forçada porque se nota que estes condutores vão em extrema aceleração para logo a seguir obrigarem-nos a abrandar porque vão virar num cruzamento ou garagem.

- Os “Fangios”, cujo objectivo único e final é acelerarem o seu veículo até ao máximo da sua potência (e do seu gasto de combustível) no espaço livre à sua frente. O óbvio problema para estes “Alonso Wannabes” é que a estrada não é só deles. Pois que acelerem a velocidades de perder a carta à vontade desde que ninguém esteja por perto. Assim, se se despistarem, também não prejudicam outros condutores que nada tem a ver com as suas manias. A propósito desta questão, é impressionante o número de pessoas que arriscam conduzir sem carta, seja porque foi apreendida por excesso de velocidade seja porque nunca a tiveram. Não saberão elas que poderão ir presas? E que mesmo que a pena seja suspensa, ficam com cadastro? Qualquer uma dessas hipóteses parece-me suficientemente repulsiva, mas pelos vistos não o será para muitos.

- Os “Medrosos”, que travam excessivamente em curva ou em descidas. Se for um veículo de gama baixa, até se poderá aceitar alguma precaução, mas quando alguém num BMW receia capotar numa curva média só porque vai a 60 km/h isso já é medo patológico. Por outro lado, muita gente parece não saber que o automóvel também abranda apenas por se retirar o pé do acelerador, e esta opção de ‘travar com o motor’ é benéfica porque reduz o consumo e desgaste do travão.

- Os “Abusadores”. Trata-se de um fenómeno recente, resultado do forte crescimento do parque automóvel, o que pode implicar uma espera prolongada nos cruzamentos sem semáforos em hora de ponta. O facto de compreender não significa que ache justificável que alguém que sai de um cruzamento sem prioridade se plante à nossa frente para entrar na faixa contrária, se não foi dado consentimento prévio.

- Os “Agentes Secretos”, que nunca sinalizam as suas manobras. O habitual é travarem de repente e pararem em segunda fila (mesmo com estacionamento disponível) ou virarem no próximo cruzamento. Normalmente ligam o pisca mas já depois da asneira consumada.

Todas estas situações aplicam-se, felizmente, a uma minoria de condutores, geralmente os mais jovens, e gostaria de salientar que estas críticas são apontadas aos actos de certas pessoas enquanto condutoras e não à sua personalidade intrínseca.

Julgo que evitar o acidente não é difícil e se existe algum segredo ele é circular mantendo uma distância de segurança lateral e frontal razoável relativamente aos outros veículos e ter um olho nos cruzamentos e em todas as saídas por onde é possível passar um automóvel, mesmo que se tenha prioridade. Também é bom ser condescendente de vez em quando mesmo que se tem razão. A condução deve ter um certo ritmo e seguir uma trajectória definida mas deve ser efectuada de forma suave, sem movimentos bruscos. Certas pessoas activas e dinâmicas, ou que querem mostrar que o são, gostam de reflectir as suas atitudes na estrada, conduzindo de forma agressiva, acelerando, ultrapassando e travando excessivamente, o que pode dar mau resultado. A estrada nada tem a ver com a vida nas empresas, exige cautela porque se tratam de vidas humanas e bens demasiado valiosos para se colocarem em risco.

Pessoalmente não tenho um acidente de minha responsabilidade há mais de cinco anos, e mesmo nessa altura, foi mais a consequência de ter de um automóvel com condições deficientes de segurança, nomeadamente a nível de travões e pneus, e de falta de técnica de condução em condições meteorológicas adversas do que propriamente distracção ou agressividade. Por outro lado, no início da minha carreira, dadas as circunstâncias existentes, apenas pude adquirir uma viatura usada, possivelmente com a quilometragem adulterada que não oferecia as condições de estabilidade adequadas e, enfim, num país onde os automóveis são tão caros, facilmente se cai num círculo vicioso de problemas mecânicos e gastos acrescidos que impedem a constituição de uma poupança para a eventual aquisição de carro novo, pelo que se tem de voltar a comprar usado, ter mais problemas e assim sucessivamente. Ultrapassadas questões monetárias, e com um maior conhecimento do estado de conservação dos automóveis e das marcas mais fiáveis, pude finalmente escolher uma viatura que me satisfaz plenamente e me permite conduzir ‘descansado’, sem pensar que posso ficar mal na próxima esquina.

Um palavra também para os Smart e outros veículos denominados de “citadinos”. Afinal o que define um veículo citadino? O facto de terem um comprimento menor acaba por não representar qualquer vantagem uma vez que no centro das cidades a maior parte dos lugares de estacionamento têm já um espaço pré-definido de cerca de 5 metros. A diferença nos consumos também não é significativa e um veículo de dimensões mais reduzidas só tem a perder em espaço, conforto e segurança. Custa a crer que a Mercedes foi patrocinar um automóvel ridículo como o Smart. Há quem os estacione na perpendicular, retirando espaço à faixa de rodagem e distorcendo a divisão dos lugares marcados de estacionamento. Outros circulam a 150 km/h ou mais com estas amostras de automóvel na auto-estrada. Caso necessitem de travar a fundo àquela velocidade, provavelmente o carro fará uma ou mais rotações sobre si próprio. Esperteza… saloia?

E porque para além de circular também é necessário estacionar, da mesma forma os comportamentos nem sempre são os mais correctos. Na minha opinião, os lugares de estacionamento deveriam ser desenhados na oblíqua, sempre que possível. Penso ser a forma mais segura e confortável para estacionar, e evita a necessidade de cuidado com os outros veículos à frente e atrás bem como os embates por abertura de portas no caso dos estacionamentos na perpendicular. Até sair se torna mais fácil, enfim, uma poupança de tempo que não é de descurar nos dias que correm. O desrespeito pelo estacionamento proibido é talvez a infracção mais frequente de todas, não sendo difícil observar ruas inteiras com imensos carros estacionados após o sinal que o proíbe. É que não só a questão da proibição por si só, são as vias que se estreitam e a circulação que é seriamente dificultada. No entanto, por qualquer obscura razão, a polícia raramente actua. Se um belo dia a autoridade de todo o país decidisse por cobro a esta epidemia as multas obtidas por essa via resolveriam possivelmente a questão do défice orçamental. E que dizer de quem estaciona em lugares reservados a deficientes? Eu costumava gracejar, comentando que até estavam bem estacionados, uma vez que tal atitude é um reflexo claro de algum tipo de deficiência. Mas é muito mais grave que isso, porque revela uma total falta de respeito pelo próximo e quem não respeita o próximo não merece viver neste planeta. Apetecia proceder como em alguns filmes, agarrando nesses condutores e interrogando-os num quarto escuro com uma luz apontada à cara sobre os motivos que os levaram a ocupar um lugar preparado para indivíduos com deficiências motoras e outras. Mas não vale a pena. A consciência não se injecta. Ou uma pessoa teve uma evolução social saudável ou não passa de uma criança egocêntrica em corpo de adulto.

terça-feira, abril 04, 2006

Gotas no oceano

Uma revolução silenciosa está a ocorrer em Portugal ao nível do sector público e administrativo. O objectivo é clarificar a função do Estado, redefinindo todos os circuitos de informação, eliminando procedimentos obsoletos e procurando melhorar o serviço público prestado aos cidadãos, ao mesmo tempo que se procura obter ganhos de eficiência e redução de custos. O plano de simplificação administrativa recentemente apresentado, com a designação prática de Simplex, é mais um passo dado no sentido de criar processos orientados para facilitar a vida aos cidadãos particulares e às empresas, a que se associaram datas concretas de entrada em vigor e, há que reconhecê-lo, a este governo não falta vontade nem determinação para concretizar os projectos a que se propõe. Longe vai o tempo dos políticos estafados, rosto pesado, que perante as questões dos jornalistas, denotavam uma total ausência de ideias, sempre na defensiva, numa desesperada procura de justificações para a sua passividade.

Não sendo uma ideia nova, dado que este tipo de programas de simplificação tem já sido posto em prática noutros países, é contudo necessário ter o arrojo de espírito para tomar a iniciativa de adaptar este conceito à realidade do país. Por outro lado, se é um facto que muita coisa poderia ter sido feita em legislaturas anteriores, também é verdade que só nos anos mais recentes a Internet se perfilou como um meio de transmissão de imensas quantidades de informação instantaneamente e se visionaram as possibilidades de aplicação das suas potencialidades a nível do serviço público, evidentemente sem colocar em causa em nenhum momento a segurança e a confidencialidade dos dados pessoais. É também bem-vinda a ordenação territorial de todos os ministérios de forma coerente, de acordo com as regiões plano, embora considere que o Norte e o Centro deveriam apresentar pelo menos uma subdivisão, em face da sua elevada dimensão geográfica e populacional.

Medida específica que é, acaba por deixar de lado outras questões pertinentes relacionadas com a administração pública. Com a adopção da Internet enquanto forma privilegiada de comunicação dos cidadãos com o Estado, os últimos governos têm vindo a criar condições para evitar as deslocações dos cidadãos às diversas repartições e serviços públicos, de forma a aumentar a eficiência do serviço, mas pretendendo igualmente reduzir custos, libertando pessoal de forma a que quando se reformarem, não seja necessário substitui-los, procurando manter o nível de serviço prestado reduzindo a intervenção humana. Esta tendência, comum aos privados, revela-se no entanto algo auto-destrutiva a médio prazo: Se a idade de reforma passa para os 65 anos em todas as actividades, sem discriminação, como conciliar esta situação com o facto de que é muito difícil encontrar emprego depois dos 40 anos, e virtualmente impossível depois dos 50? E enquanto isto a população vai envelhecendo por ausência de estímulo à natalidade e o trabalho vai-se tornando mais precário, o que vai estrangulando gradualmente a segurança social. Que factura para as próximas gerações!

Apesar dos esforços de redução do contacto directo com os serviços estatais, mais cedo ou mais tarde surge porém a necessidade de nos deslocarmos a esses serviços. E o que encontramos? Instalações espartanas, tristes mesmo, conforto reduzido ao mínimo, computadores e outros equipamentos informáticos próprios da idade da pedra, funcionários desmotivados mas heroicamente continuando a tentar dar o seu melhor. Em termos de saúde a solução é mesmo mantermo-nos saudáveis, caso contrário o serviço público de saúde é para esquecer. Tal como na justiça, só os privados dão alguma garantia de qualidade. E já que este governo elege a coerência e o desenvolvimento tecnológico como factores de sucesso para o país, então existem ainda muitas melhorias a implementar. Se o serviço de Finanças é o mesmo para particulares ou empresas, então para que existem conservatórias separadas de acordo com o registo civil, criminal, predial, comercial ou automóvel? E nas escolas, porque continua a vigorar o sistema retrógrado dos cadernos e livros, dos quadros e do giz? Em Israel, por exemplo, as salas de aula possuem um computador para cada aluno, com acesso à Internet condicionado, o que permite que os manuais escolares apresentem um formato digital, e desta forma os pesados e caros livros são substituídos por CDs ou DVDs que inclusivamente podem ser fornecidos pelo Estado a um preço bonificado. Os cortes e congelamentos dos orçamentos das universidades só fomentam a estagnação em termos de desenvolvimento das diversas áreas de estudo. Deveria haver antes um reforço da cooperação entre as universidades e o mundo laboral, com vista a aproximar os cursos leccionados e a investigação científica das necessidades das empresas, ao invés de se continuar com uma política de costas voltadas.

A incessante e obsessiva compulsão pela redução dos custos reflecte-se também na debilidade da fiscalização, o que convida os agentes económicos a encontrar as mais variadas e criativas formas de contornar a legislação existente, que acaba por se tornar mais uma sugestão que uma imposição. A criação e dissolução de empresas na hora, por exemplo, abre o caminho a fugas aos credores, à obtenção de subsídios e incentivos indevidos e a toda uma panóplia de esquemas em que o Estado só tem a perder se não existir um controlo mínimo dos circuitos económicos. Resta ter esperança que o empenho que este governo parece ter no cruzamento de dados traga alguns frutos.

Vamos agora supor, e tudo leva a crer que sim, que a implementação do Simplex e de outras medidas é um estrondoso sucesso, agilizando todos os contactos com a administração pública, poupando tempo e dinheiro aos cidadãos. Ora, nas empresas, quem se ocupa das questões relacionadas com os organismos públicos são, geralmente, as pessoas com funções de carácter administrativo, porque quem está na área de vendas não vai obter maior facturação para a sua organização, ou incrementar as exportações apenas porque o relacionamento com as instituições públicas se simplificou. Nem o responsável pela produção vai assistir a um aumento milagroso de produtividade apenas por essa via. A competitividade não se legisla ou promulga. É resultado da inovação, fruto dos processos de investigação e desenvolvimento. O preço é um factor decisivo mas a qualidade e a utilidade pesam cada vez mais nas escolhas dos consumidores. O combate à burocracia representa menos um espinho a restringir e limitar a economia portuguesa mas restam outras centenas de espinhos a eliminar.

Relativamente aos particulares, poderão passar a ter mais tempo livre como resultado destas medidas, mas dado o reduzido poder de compra da maioria das pessoas, o crescente endividamento e também alguma falta de formação pessoal e de capacidade de apreciar a arte e a cultura, que farão eles com esse tempo adicional? Enquanto os jovens se vão entretendo com os sms, o hip hop, a mentecapta novela Morangos com Açúcar e tele-lixo sortido, detestando a escola mas receando a entrada no mundo do trabalho, os adultos vão conversando sobre deprimentes assuntos do dia-a-dia, como doenças, desgraças, morte e afins. Aposto, e lanço aqui um desafio aos media, que abordando o português médio na rua pedindo-lhe para desenvolver um tema à sua escolha, ele vai seguramente escolher um assunto negativo. Ele poderá até considerar que não vive bem (o que já é um avanço relativamente à grande massa que se vai iludindo a si própria) mas não há projectos para o futuro, não há planos para uma melhoria das suas condições de vida. A verdade é que, para grande parte dos portugueses, o único projecto de vida que possuem é… sobreviver.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A divina comédia

Os muçulmanos são muito sensíveis. No entanto, quando se trata de cometer actos terroristas não pensam duas vezes antes de matar o máximo número de pessoas possível. Como é possível que agora se sintam tão escandalizados e revoltados por causa de um mero desenho sobre uma suposta entidade divina? E que morram esmagados durante um espectáculo representativo de uma alegoria relacionada com a vida de um homem a quem denominaram de profeta na peregrinação a Meca? Tanta devoção e tanta desumanidade num só povo. Isto para não falar na tortura da excisão que ainda é praticada em algumas tribos africanas, a condenação à morte por lapidação, a obrigação de véu e outras humilhações que as mulheres sofrem em muitos (felizmente não todos) os países onde a religião muçulmana é a dominante.

O Irão quer prosseguir um programa de enriquecimento de urânio, pretendendo convencer o resto do mundo que os seus objectivos são pacíficos, uma vez que o objectivo será a criação de uma central nuclear para uma melhor eficiência energética do país. Ora, como se sabe, o Irão possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo e é auto-suficiente ao nível de consumo de energia, o que conduz a uma óbvia desconfiança relativamente às suas verdadeiras intenções. Se acrescentarmos isto à imbecil proclamação da ideia de “varrer Israel do mapa”, temos um país que demonstrou uma intolerância extrema face aos valores fundamentais de convivência humana. Mesmo se tivermos em linha de conta que Israel é uma nação artificial, implantada pela força em território árabe como se isso de alguma forma fosse servir de compensação pela tragédia do Holocausto, não é justificável a afirmação de Ahmadinejad. A sua vitória significa um retrocesso na transição do Médio Oriente para a democracia e para o desnvolvimento.

A humanidade não precisa nem nunca precisou de religião para atingir a felicidade, a paz entre os povos ou a satisfação pessoal. Além de inútil, a religião, seja ela qual for, é perigosa, e, eventualmente, um dia conduzirá ao nosso próprio extermínio.

quinta-feira, novembro 17, 2005

A solução para a crise de "vocações" (e para todas as outras crises também)



O segundo motivo pelo qual adorei o filme 'O Crime do Padre Amaro' foram as espectaculares panorâmicas de Lisboa. Aconselho vivamente esta adaptação da obra de Eça, e tenho a certeza que se o escritor fosse vivo aprovaria todo o enredo e iria querer conhecer alguns dos protagonistas para lhes dar as felicitações pelo hmm... empenho que demonstraram nos seus papéis.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Vencer (?)


Exemplos de sucesso apresentam vários factores em comum: Uma atitude perante a vida caracterizada por uma visão muito concreta dos objectivos que pretendem atingir, e o correspondente percurso a seguir; encaram cada obstáculo como uma oportunidade e não como uma ameaça; perseveram, levantam-se se caem, celebram as vitórias, aprendem com as derrotas. A estas condicionantes endógenas coadjuva um ambiente favorável ao desenvolvimento pessoal, onde o meio social e familiar envolvente é decisivo, fornecendo um apoio fundamental no caminho conducente àqueles objectivos traçados. Este apoio configura variadas vertentes, desde logo uma herança cultural que promove a integração do futuro adulto na sociedade, iniciando uma útil rede de conhecimentos pessoais, bem como a disponibilidade dos recursos financeiros necessários à formação e aos primeiros passos na vida profissional, seja numa perspectiva da concretização de uma projecto próprio seja em termos de gestão de carreira em organizações privadas ou públicas.

A realidade é que a rara conjugação destes factores reduzem em muito as possibilidades do comum dos mortais de dizer com naturalidade que a sua vida é um constante e estimulante desafio. Muitos enganam-se a si próprios, vendo algo de muito positivo na sua vida, mas quando esprememos o conteúdo da sua existência, verifica-se que o que atingiram não foi nada de memorável. Outros parecem conformados com a sua sorte, mas não acredito que estejam verdadeiramente satisfeitos tal como estão, pois não é da natureza do ser humano ter a sensação de satisfação (quando muito é demasiado efémera para sequer se ter em consideração).

As boas notícias são que mesmo não nascendo envolvido em todos os ingredientes do êxito, é possível alterar a situação e construir um castelo a partir da areia de um deserto. As más notícias são que as teias negativas que nos enredam podem ser demasiado fortes para nos conseguirmos libertar delas. O que nunca deve servir de justificação para não nos aventurarmos a chegar aonde queremos.

Em França, as tensões sociais ascenderam a um ponto de ebulição. Nada de novo se observarmos a História, mas uma particularidade emerge desta situação, algo que só poderia acontecer nos dias que correm. A negação do direito ao trabalho é das privações que mais agride a dignidade humana. Ninguém gosta de se sentir a mais. A globalização, as constantes fusões e aquisições, as deslocalizações de empresas países com custo laboral mais reduzido prendou-nos com bens de consumo cada vez mais atractivos e acessíveis e amaldiçoou-nos com uma legião de pessoas sem ocupação, à margem, desiludidas e em certos casos extremos a enveredar pela criminalidade. As grandes empresas, sempre focadas no lucro, deverão ter a noção que, quando despedem centenas ou milhares de pessoas (ou inversamente, não criando postos de trabalho) não vivem em ilhas isoladas. Tudo afecta tudo e todos afectam todos. As crises sociais são perigosas, e podem não ficar apenas por carros destruídos. Todo este bem elaborado sistema, toda esta delicada relação de interesses, toda a estabilidade e o mundo tal como o conhecemos pode ruir como um castelo de cartas num curto espaço de tempo. Observando com atenção o que se passou em Nova Orleães, facilmente se chega à conclusão que apesar de toda a evolução civilizacional o homem pode voltar à condição de besta numa questão de dias. Note-se que apenas citei duas situações e ambas ocorreram nos denominados países desenvolvidos.

Recentemente assisti a um documentário sobre a forte quebra da natalidade no caso específico da Alemanha, embora se trate de uma situação recorrente em toda a Europa. Apesar dos elevados custos da reunificação, a Alemanha é dos maiores exportadores mundiais e goza de uma elevada prosperidade económica. Os seus habitantes usufruem de um índice de conforto e poder de compra de topo de tabela e no entanto a fraca natalidade assume proporções preocupantes. Maternidades e escolas fecham por falta de utentes, praticamente não se vislumbram crianças na rua. Famílias com dois ou mais filhos são consideradas impopulares e são colocadas de parte por amigos e conhecidos em convívios e acontecimentos sociais. O que se passa é que para se poder dar a uma criança todas as hipóteses se singrar numa sociedade em que a exigência do mercado de trabalho e a competitividade extravasaram todos os limites do imaginável implica uma dedicação e um esforço financeiro tal que desanima os jovens casais de ousarem criar família, preferindo antes seguir uma carreira aliciante e viver a vida livre e hedonisticamente em vez de torná-la um indigesto sacrifício.

Um estudo científico revelou que os monges tibetanos são as pessoas mais felizes à face da Terra. Todavia, praticamente não têm posses e levam uma vida simples e humilde. É curioso como os anos passam e o tema Imagine de John Lennon se mantém sempre actual.

sexta-feira, agosto 05, 2005

Pelos caminhos de Portugal

Um dos prazeres mais tardios que conheci foi o de ouvir música ao conduzir. Então se for música clássica, o efeito é mágico. Conduzindo pelas estradas deste país, é interessante associar algumas realidades típicas do Verão português a algumas composições, ao mesmo tempo que se tem a divina sensação de viajar numa espécie de nave intocável onde no conforto do ar condicionado se pode observar e analisar, como um astronauta, o que se passa ao nosso redor.

- Ouvir Eine Kleine Nachtmusic de Mozart enquanto os incêndios florestais se revelam no horizonte, que podia muito bem ser de um belo azul, mas que com o hábito vamos cedendo à ideia da inevitabilidade de uma relação directamente proporcional entre temperaturas superiores a 30º C e a existência de fogos. Isto apesar das promessas anuais de maior prevenção, maior fiscalização e mais meios de combate, às quais já poucos dão ouvidos. Alegremente vamos perdendo uma das nossas principais riquezas.

- Uma 5ª Sinfonia de Beethoven enquanto se observa a invasão de emigrantes, visivelmente deslocados no país de onde partiram para outra vida, que se calhar acabou por não ser muito mais bem sucedida do que a que poderiam ter cá. Acabam por se tornar uma espécie híbrida, que não pertence inteiramente nem a Portugal nem ao país de destino, e por vezes trazem os filhos já nascidos no estrangeiro, que se devem perguntar a si próprios o que raio vêem os pais neste país para cá voltarem constantemente.

- Escutando uma Carmina Burana de Orff ao passar junto às ruínas de grandes empresas encerradas, umas que implodiram por escassez de competitividade, outras que apanharam o TGV da deslocalização. Ó fortuna…

- Uma visita a Lisboa ao som de Pomp & Circumstance de Elgar combina perfeitamente com a noção que se fica da cidade, como um misto de megalomania espelhado na sede da CGD ou no Parque das Nações, e de decadência que se nos apresenta através da toxicodependência, dos sem-abrigo e da prostituição infantil, entre o saudosismo dos Descobrimentos e a degradação da zona histórica.

- Calmamente percorrendo uma estrada nacional num passeio nocturno, três veículos vão-se aproximando e ultrapassam-me a uma velocidade de 120 km/h ou mesmo superior. Ora digam lá se isto não merece uma Abertura do William Tell de Rossini? E então se um deles se despistar alguns quilómetros à frente, ponho logo a tocar o Quebra-Nozes de Tchaikovsky.

- Um Danúbio Azul de Strauss, ao ver as praias a abarrotar de pessoas, tomando um banho cancerígeno de sol ao mesmo tempo que se movimentam com dificuldade no exíguo espaço que resta entre as toalhas. Um calor tórrido, onde o que apetece é perdermo-nos numa qualquer zona rural, plena de espaços verdes, ou então passar alguns dias num parque aventura, a jogar paintball ou a deslizar suspensos numa corda a 30 metros de altura, mas não, desloca-se o país em peso para o caro, monótono, insuportavelmente populoso e decepcionante Algarve, e, para cúmulo, dá-se-lhe o nome de ‘férias’. Porém, como tudo tem um lado positivo, quanto mais gente se decidir por esse destino, mais desocupados e atractivos ficam os locais que interessam.

- Por fim, imaginemos o grande Aeroporto Internacional da Ota, com pistas a perder de vista, repleto de aviões a aterrar e a descolar, ao som de, quem mais, Wagner na sua Cavalgada das Valquírias. Tocaria naquelas paredes e tirava uma fotografia a mim próprio com o seguinte comentário: “Aqui jazem os meus impostos, que poderiam servir para uma vida melhor na minha reforma, mas que, em vez disso, foram transformados em alguns metros quadrados de postos de check-in”.

Fim da viagem. Não me interpretem mal porque, apesar de tudo, gosto bastante de Portugal. Portugal, ao que parece, é que não gosta muito de si próprio.

sábado, julho 09, 2005

Long Live the UK


My first post in English on this site stands on behalf of those who have deceased or got injured on the unbelievably coward attacks that took place in London last Thursday morning.

However, British character and posture shone like it always does, and by evening, people would get back home from work, using whatever means of transportation, with a sense of maturity that has the knowledge that what happened is circumscribed to that moment in time and place, and that no reason should distract or refrain anyone from moving ahead with their lives.

I've been a long time admirer of the British culture, being it their fabulously intuitive language, their tradition in democracy, perhaps the oldest in the modern world, their music, their known sense of humour, intelligent and sarcastic, their monarchy and their wealth of historical facts. Also, their resilience; Londoners invented the expression 'business as usual' while having Germans bombing the city in WWII. Surely they may not be masters in the new technologies or car manufacture, but their humanity, empathy and warmth is evident to anyone that gets in contact with them.

Portuguese emigration in England rose to the hundreds of thousands in the last few years, and generally our people is welcomed there and recognized as a valuable working force. Soccer coach Mourinho is more of an exception than the rule, but it’s a case of astonishing success for a Portuguese working abroad.

As for music, I have to make a statement about the remarkable originality and meaningfulness contained in the music made in the UK. Basically all modern pop and rock music around the world has British influence. The messages contained in those four or five minute songs are understood worldwide, from Chile to Japan, where we can find a huge amount of fans and listeners of bands and singers either retired or active. As for me, I could make an exhaustive list of all the bands and songs that changed somewhat my point of view over things, revealing a new perspective of situations apparently out of my control and showing that the humanity I talked about is present in the lyrics that are sung (even the most dark or bizarre ones), the sounds that are made, the motivation and energy while singing and playing them. Since I heard Blondie’s ‘Heart Of Glass’ at age 4 on the speakers of a beach town by the sea, I knew music would have a very important part in my life. Over time, music has been a source of inspiration, an off-the-wall motivator as well as a relaxing and anti-dramatizing mind weapon. Overall you can say it contributed to my personal growth. Someday I’ll dedicate some time over this subject on the blog.

For the foreign readers I created the blog cause/effect that has already been filled with the incredible amount of two posts… I stake here my promise that I will post some thoughts more often. Nevertheless, it’s possible that in the future some posts in English will be found here too. See you!

Hats Off To Sócrates

Quando uma família sente dificuldades de ordem financeira, procura analisar a situação de uma forma instintiva. De lado das receitas, não existem grandes dúvidas, dado que geralmente as fontes de rendimento são facilmente identificáveis: Rendimentos do trabalho por conta própria ou por conta de outrem, alguns investimentos ou rendas de imóveis. Quanto às despesas, essas são inúmeras e a velha questão impõe-se: Afinal, para onde vai o dinheiro?

Já existiram políticos e comentadores que compararam de uma forma muito simples mas verdadeira o Estado a um orçamento familiar (ou ao de uma empresa), em que há necessidade de aumentar receita e/ou controlar a despesa. Outros até sugeriram soluções para refrear o défice, e outros, quando em cargos governativos, tomaram medidas meramente paliativas, sem se dirigirem ao fundo da questão, apenas arranhando a superfície do problema, na esperança vã que uma incerta retoma aliviasse as contas do Estado, mantendo oculto o insustentável peso do sistema público na despesa, apenas adiando o inevitável até se poder chegar a um ponto de não retorno. Ora, um doente com cancro não vai seguramente melhorar através da administração de aspirina.

Em Portugal há o hábito de falar muito, apresentar muitas ideias e sugestões. Mesmo quando um determinado partido chega ao poder, os seus representantes continuam a falar muito e a apresentar muitas ideias e sugestões. Pois quanto mais se fala, mas se suspeita que falta a coragem de levar as palavras aos actos. Bem mais grave que o défice orçamental tem sido o défice de coragem dos governantes. Todos e cada um deles sabiam o que se passava. Tudo o que fizeram foi deixar incólume a intocável estrutura pública ou mesmo agravar a sua obesidade mórbida, apresentando depois a factura aos contribuintes.

Sabia-se que o défice orçamental ainda não estava totalmente dominado, que se tinha composto a contabilidade pública com algumas receitas extraordinárias para Bruxelas não franzir o sobrolho e toda esta problemática tinha sido um pouco adormecida. Com a entrada do novo Governo, resolveu-se realizar um estudo para fazer um ponto da situação de forma a conceber um plano para conter o défice de 2005 nos 3%. Eis que o quadro se revela bem negro: Um défice previsto de aproximadamente 7%, num cenário de ausência de medidas correctivas.

Uma sensação de déjà vu percorre os portugueses à medida que Constâncio expõe as suas conclusões, só que o discurso político já não se resume à tão prosaica tanga, pois parece que até essa nos foi tirada. A imperativa análise aprofundada às contas públicas revelou as camadas adiposas do grande polvo estatal. A Sócrates apresentou-se um dilema do tamanho do país: Assumiria as suas próprias promessas, não aumentando os impostos, o que tornaria praticamente inviável um saneamento das contas públicas a médio prazo, ou tomaria a responsabilidade de tomar as difíceis mas necessárias decisões para devolver ao Estado a sua credibilidade perante os agentes económicos.

Escolheu, de forma rápida e segura, uma solução integrada de aumento de receita e redução de despesa, que poderia ser ainda mais completa, mas é comprovadamente um conjunto de medidas bem mais fiável que a não-solução, por efémera, da correcção do défice por receitas extraordinárias. O país ficou atónito ao tomar conhecimento concreto das incontáveis regalias do sector público, tão bem camufladas que sempre passavam despercebidas. Reformas antecipadas, iguais ao vencimento e em idade inferior, regime especial de cuidados de saúde, descontos para a Segurança Social inferiores ao sector privado, reformas acumuláveis com o vencimento, promoções automáticas e independentes do mérito, enfim, todo um somatório de benesses de deixa boquiaberto o comum dos mortais (leia-se trabalhador dependente). Mas Sócrates não pensou duas vezes em corrigir estas situações de clara discriminação, mesmo a nível da classe política, incluíndo ele próprio (!), ao eliminar a subvenção vitalícia atribuída aos deputados e membro do governo com mais de 12 anos de serviço.

As reacções do sector público às medidas tomadas, sobretudo no diz respeito ao aumento da idade da reforma, não se fizeram esperar. Enfermeiros, professores e polícia argumentam que a sua profissão não é compatível com uma idade de reforma tão elevada como os 65 anos. Provavelmente operários do sector têxtil, do calçado ou da metalomecânica têm uma vida muito mais facilitada, dada a ‘leveza’ da sua função. Talvez uma funcionária de limpeza com 65 anos tenha possibilidades de exercer a sua profissão com muito mais vigor que um GNR. Obviamente são argumentos que não colhem, para não lhes chamar um insulto aos trabalhadores com funções de maior desgaste físico, mas a origem do problema está, e esteve, na criação destes regimes diferenciados, algo que nunca deveria ter acontecido. A questão é que todas estas regalias não implicaram, de uma forma generalizada, um aumento na produtividade e na qualidade do serviço público prestado. Talvez tenha sido até contraproducente. Todavia, poucos frutos se colhem olhando para o passado.

Por muito surpreendentes e positivas que estas medidas sejam, nada se fará sem uma autêntica recuperação económica. Nenhum governo se poderá substituir ao sector privado, e Sócrates não se deveria atrever a prometer 150 000 postos de trabalho. Apesar de a cultura do empresário Ferrari pertencer ao passado, e as inúmeras falências que têm vindo a acontecer servirem um bom objectivo, o de sanear a economia de empresas de fraco valor acrescentado, a cultura empresarial actual, salvo honrosas excepções, ainda segue um modelo de gestão algo ultrapassado, ignorando as novas tecnologias, novos métodos de gestão, processos produtivos mais eficientes e automatizados, novos mercados. Afortunadamente, as empresas que apostam no seu futuro de forma sustentada e sem medo do risco, risco calculado entenda-se, são cada em cada vez maior número, e poderiam ser ainda mais se a banca perdesse um pouco de vista o seu conforto financeiro e apostasse em candidatos a empresários com negócios já idealizados, a quem apenas falta o capital. Isto porque em Portugal não existem sociedades de capital de risco, e qualquer pessoa que não encontre apoio para um negócio a sério (e não apenas um minúsculo quiosque ou fabrico manual de malhas em crochet) pode muito bem ficar com a sua ideia brilhante na prateleira, para mais tarde recordar. Mas para quem pensa que Portugal não tem pessoas com novas ideias para negócios, sugiro que visite o site Concurso Nacional de Empreendedorismo para ter a noção de toda a animação que está a decorrer em torno de um concurso para novos empreendedores. A audácia de acreditar em nós próprios, não importando as circunstâncias, é a rampa de lançamento para a vitória.

quinta-feira, maio 12, 2005

Vive!

2005, ano de contagem intermédia da primeira década do milénio, revelou algumas novidades musicais realmente excitantes, contrariando a apatia dos últimos anos. A nível de singles pode-se já reunir uma selecção que incute energia e atitude positiva, algo raro num país que parece ter aderido em massa ao culto da tristeza e que se dedica a carpir os sonhos perdidos. Como diria alguém, eat this:

Moby – Lift Me Up
Franz Ferdinand – The Dark Of The Matinee
Chemical Brothers – Galvanize
Green Day – Boulevard Of Broken Dreams
Gwen Stefani – What You Waiting For
Outkast – Hey Ya
Kylie Minogue – I Believe In You
Evanescense – Missing
Scissor Sisters – Mary
Stereophonics – Dakota
Jennifer Lopez – Get Right
Coldplay – Speed Of Sound
Keane – This Is The Last Time
New Order - Krafty
U2 – Sometimes You Can’t Make It On Your Own
Jamie Cullum – Everlasting Love

quarta-feira, maio 11, 2005

O império contra-ataca

Em todos os campos a influência chinesa começa a manifestar-se no mundo. Já não são apenas os pequenos e desordenados bazares que florescem como cogumelos pelas cidades, agora a entrada nas economias ocidentais é feita pela força bruta dos preços esmagados, agora que o proteccionismo artificial atingiu a caducidade. Não há por isso lugar a paternalismos quando as indústrias têxteis e outras fortemente dependentes do factor trabalho vêem a sua clientela a diminuir. É adaptar ou morrer, agora que os chineses parecem apostados em nivelar o resto do mundo por baixo. Com uma força de trabalho que por natureza já é de baixo custo, os empresários chineses recorrem a truques baixos como o corte de regalias sociais e sobrecarregam os trabalhadores com horários excessivos.

O mundo desenvolvido parece, por isso, destinado a pagar um preço alto pelo seu desenvolvimento, com a deslocalização da produção para países com mão-de-obra menos onerosa, o consequente aumento do desemprego e o agravamento das convulsões sociais. De que serve ter produtos mais baratos se há mais pessoas sem emprego e o consumo diminui? Como sempre, a mão invisível do mercado originará um equilíbrio, mas a questão é se esse equilíbrio se enquadra num limiar de dignidade humana. Com a economia a funcionar cada vez mais a nível global, e com o poder económico a cair nas mãos de grupos cada vez mais poderosos, os trabalhadores passam a ser meros executantes de funções num organigrama gigante, sempre dispensáveis no caso de não atingirem os objectivos previstos, constantemente mensurados através de indicadores definidos numa qualquer folha Excel e com ínfimas hipóteses de progressão na carreira. A concorrência oriental agravará esta situação, na medida em que as empresas ocidentais se vão aproveitar da actual flexibilidade das relações laborais para reduzir ou encerrar unidades produtivas e movê-las para países com um factor trabalho significativamente menos oneroso. Paradoxalmente a tão elogiada flexibilidade laboral parece funcionar apenas num sentido, pois enquanto para a empresa só traz benefícios, em relação ao trabalhador a suposta perspectiva de encontrar novo e melhor emprego afigura-se como uma missão impossível, e segundo uma estatística recente, quem por qualquer motivo perde o seu emprego, vê o seu arduamente procurado novo posto de trabalho trazer-lhe uma remuneração inferior, traduzindo-se em perda de poder de compra, de qualidade de vida e, em última análise, infelicidade e frustração.

Os imensos Estados Unidos da América afundam-se na imensa dívida pública de 7,8 triliões (10^12) de dólares, mas se o Estado é ineficiente, George W. Bush avança para guerras de motivos duvidosos que implicam um enorme esforço financeiro e ainda assim mais de metade dos americanos elegem-no para um segundo mandato, então anda tudo muito satisfeito (leia-se iludido). A debilidade económica é, no entanto, evidente, e o superávite orçamental dos tempos dourados de Clinton não passa agora de uma boa recordação. Já o défice externo atingiu 618 biliões (10^9) de dólares, em grande parte devido ao significativo aumento das importações chinesas e do aumento do preço do petróleo. Esta situação não é sustentável a longo prazo, e basta que os principais financiadores percam a fé na capacidade regenerativa da economia americana que o dólar entrará em queda livre. A população americana ver-se-á então confrontada com crescentes taxas de juro dilacerando o consumo e o investimento. A avalanche não será restrita ao continente americano, Europa e Japão também sofrerão consequências. Agora que os chineses começam a perder o receio de deixar de fixar o yuan em relação ao dólar, inequívoca prova de confiança na sua própria economia, preparam-se para jogar um xadrez mais radical, e um braço-de-ferro com as grandes companhias americanas afigura-se inevitável. Os têxteis são apenas a ponta do iceberg. O arsenal da indústria automóvel chinesa é poderoso e em breve não ficaremos surpreendidos ao assistirmos à entrada no mercado de novos e baratos modelos. A seguir, tudo é possível - telemóveis, tecnologia de ponta, electrodomésticos, computadores, equipamento industrial. Tal como aconteceu com o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan mas agora numa escala bem superior à medida da sua imensa população de 1300 milhões de habitantes. O recente acordo com a Índia pode origem a uma zona de comércio livre que agrupa perto de 40% (!) da população mundial.

Ninguém pode ficar indiferente ao grande dragão do Oriente. Resta-nos aguardar que a abertura latente que a sociedade chinesa tem vindo a demonstrar se reflicta no regime político. A expressão 'democracia chinesa' tem de deixar de ser uma contradição em termos, porque o regime democrático é uma garantia de paz, boas relações internacionais, e ao permitir a expressão livre dos cidadãos e o diálogo entre os intervenientes sociais, abre o caminho para a melhoria das condições laborais, o que ironicamente poderá ser benéfico para o Ocidente, uma vez que os empresários chineses já não poderão fazer-se valer dos salários indignamente baixos para colocar produtos no mercado a preços arrasadores. Esta é a única visão optimista possível para o futuro da vida no planeta: Todo o mundo deverá atingir um patamar mínimo de desenvolvimento, através da eliminação das assimetrias e um ponto de equilíbrio entre interesses antagónicos deve ser atingido de forma que ninguém fique excessivamente prejudicado. Nessa altura a nossa espécie terá realmente alcançado a excelência.

quinta-feira, março 31, 2005

Coffee Break


And now for something completely different: A galardoada série Lost conta com um elenco de desconhecidos mas promissores actores entre os quais esta adorável preciosidade chamada Maggie Grace, com apenas 23 aninhos. Simplesmente não se consegue afastar o olhar...
Posted by Hello

sexta-feira, março 25, 2005

A ofuscante beleza da eficiência

Algo que sempre me intrigou em algumas pessoas com quem tenho contactado ao longo da vida é um fenómeno que baptizei de ineficiência intelectual. Toda a gente conhece alguém que, perante um dado problema a resolver, dá voltas e voltas à questão, alude a tudo e mais alguma coisa excepto no que é necessário para resolver o problema. Na melhor das hipóteses, até chega à conclusão certa, mas perdeu imenso tempo à procura da solução nos locais mais improváveis. Ora, esta situação extrapolada para a vida académica ou laboral representa um incomensurável desperdício de energia, gera atritos no desenvolvimento das relações inter-pessoais e leva muitas vezes as pessoas a tomarem as decisões erradas.

Estou a pensar, por exemplo, nas mulheres maltratadas pelos maridos que teimam, contra todas as evidências, em considerar que a última vez que sofreram violência física foi mesmo a última. Ou então naquele colega de turma que nos pede ajuda para preencher uma forma verbal num exercício de línguas e olha para nós com um ar de total confusão, sem uma pista: “Será x, será y?” na ausência de um único resquício de raciocínio lógico. Estou a pensar no uso de cábulas, que só demonstra que a pessoa que as usa se define como um total falhanço, acabando por ser um reconhecimento da sua própria incapacidade. Que respeito têm essas pessoas por si próprias? NÃO estou a pensar no colega novo que tem mil e uma dúvidas e tenta obter o máximo de conhecimentos sobre a função que vai desempenhar, perguntando, às vezes desanimando mas logo voltando à carga. ESTOU a pensar no colega novo que depois de lhe ser mostrado vezes sem conta como uma determinada tarefa é realizada, esquece-se de tudo e no dia seguinte volta a questionar exactamente a mesma coisa. Estou a pensar em pessoas monótonas, repetitivas, tediosas até provocar sonolência, que necessitam de recorrer constantemente às mesmas frases feitas, às mesmas piadas gastas, como a vida tivesse de ser uma sucessão de acções robóticas e despidas de qualquer ponta de imaginação e criatividade. O filósofo Gurdjieff afirmava, de forma visionária, que se nós não nos formos lembrando a nós próprios de introduzir ideias novas e frescas no nosso dia-a-dia, tendo por fundo o nosso projecto de vida ideal, se fizermos apenas o que é esperado, acabamos por adoptar uma maneira de ser própria de robots. Acredito que ter objectivos na vida e persegui-los é condição sine qua non para sentirmos um mínimo de prazer em estar vivos.

Mas voltemos à questão do pensamento lógico, com um exemplo ilustrativo. Eu sei que se quiser ir de Porto a Lisboa posso tomar, por exemplo, a auto-estrada A1, ou se não quiser pagar portagens, sigo pela N1, se tiver disponibilidade a nível de tempo. Também sei que posso sair do Porto para Viana, viajar por Espanha, ou até pela Europa e, tomando o caminho certo, também chego a Lisboa. Dias ou semanas depois, é certo, mas chego. É a esta circulação fora dos trilhos a que me refiro. Quando detecto que uma pessoa não está a seguir uma linha clara e objectiva de ideias, ou então inventa, ou dá uma desculpa para a sua pobreza de atitude mental, fico a pensar: O tempo que esta pessoa deve ter perdido ao longo da vida com questões menores. É tempo que perde e faz os outros perder. A insegurança interior que deverá sentir, o nervosismo perante situações novas ou inesperadas. Como vivem? Quando se pensa em termos de empresa, é fácil de concluir o quão prejudicial esta postura se pode tornar. Falta organização, perdem-se sinergias essenciais num mundo tão competitivo como é o de hoje. Negligencia-se o essencial, valoriza-se o acessório. Pelo contrário, um bom raciocínio fascina-me, como que abre novos horizontes, inspira-me. A arrepiante simplicidade da eficiência ilumina o caminho a seguir, como as luzes de uma pista de aviação em noite cerrada.

A incessante capacidade de aprendizagem é talvez a mais importante característica dos seres humanos. Pena é que nem todos saibam aproveitá-la, mantendo uma visão curta do seu lugar do mundo. Menos concorrência para quem sabe o que faz na vida, dirão os cínicos. E talvez concorde.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

O melhor parque de diversões

Apetece-me escrever sobre sexo, mas ao mesmo tempo penso que nada há a dizer pois é na actividade sexual que tudo se sente, e nada há a descrever depois, nada que palavras possam exprimir. É algo fascinantemente peculiar porque é diferente de toda a experiência intelectual que nos rodeia no dia-a-dia – o raciocínio, a argumentação, ou mesmo meras conversas de circunstância estimulam e alteram a nossa perspectiva das coisas mas apenas o cérebro se envolve. Na relação sexual, todo o nosso ser físico, o animal interior talvez, revela-se como se existe uma libertação da nossa essência enquanto ser vivo. A minha primeira relação como que completou o meu conhecimento de mim próprio, e ao mesmo tempo iniciou um novo ciclo da minha vida, como se passasse a ter uma nova visão do mundo. Nem fotografias nem filmes alguma vez me levaram a uma satisfação remotamente semelhante a algo real; preciso da sensação, da proximidade, do contacto. E depois, segue-se o instinto. “The grabbing hands / grab all they can / all for themselves / after all”.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Estilhacemos limites, provemos o que valemos

Em véspera de eleições mais uma vez nos encontramos, desta feita com um sabor artificial, por via de uma decisão presidencial justificada com os motivos mais subjectivos possíveis; aquela espécie de argumentos que tanto funcionam contra como a favor. Mas não é meu hábito olhar para trás.

Atendendo aos gravíssimos problemas estruturais do país, não creio que as alternativas existentes tenham até ao momento apresentado soluções de fundo, metas a atingir, enfim um caminho a seguir até ao sucesso, nem que se esteja no campo das hipóteses. A visão mais ambiciosa para Portugal que tive oportunidade de testemunhar foi a de Durão Barroso quando, ainda antes de conhecer o abismo orçamental deixado pelo guterrismo inconsequente, prometeu desenvolver estratégias que permitiriam levar esta nossa sociedade não apenas para fora da cauda da Europa mas para a linha da frente, elevando-nos a um nível de desenvolvimento económico equiparável ao padrão superior da humanidade.

Na presente campanha, como aliás é normal neste país em inúmeros aspectos, na falta de novidades avançam-se com questiúnculas insignificantes, como estas insinuações sobre Cavaco Silva apoiar uma maioria socialista, a entrada em cena do bobo da corte madeirense, e nada se ouviu em termos de ideias sólidas para o pais, por muito atento que se pudesse estar. Da Gabriela à Quinta das Celebridades este país ou, digamos, a grande massa populacional, vive nestas distracções nacionais, conveniente a alguns se calhar, mas por sua inteira responsabilidade. A facilidade com que as pessoas se enganam a si próprias é confrangedora. Após uma educação pobre e despida de cultura, culpando professores, que levam uma vida de humilhante nomadismo e desrespeito, copiando nos testes como forma de resolver os seus problemas de curto prazo, avançam para o mercado de trabalho sem elementares conhecimentos de inglês ou informática e tudo são dificuldades. Casando cedo e sem preparação, surgem os filhos e os problemas. Os magros rendimentos vão limitando a sua vida e os seus horizontes, assim como o dos filhos, numa evolução circular descendente. Sem espírito crítico, vão aceitando o que a televisão transmite, sem exigência, embrutecendo, e como o meio ambiente é similar, pensam “se todos são assim, então é porque está bem ser assim” e tudo vai continuando sem alterações. Vidas perdidas, nascer, crescer, reproduzir e morrer, como qualquer animal.

Nesta campanha, deixando de lado discursos sobre os direitos do proletariado e viagens em avião particular, algo se vai ouvindo, algumas ideias se definem, algumas, poucas, na frente socialista, ainda sem o benefício da dúvida tendo em conta a origem do líder, mas sobretudo de Santana Lopes. Algo sobre competitividade, a sobrepor à tão propalada produtividade que as confederações patronais tanto apreciam expor como um defeito dos trabalhadores portugueses, tentando-os inferiorizar, quando aquele conceito está muito mais nas mãos dos empresários do que dos nossos ‘preguiçosos’ trabalhadores, que no Luxemburgo representam um terço da força de trabalho. Luxemburgo que só tem um dos PIB per capita mais elevado do mundo. Mas a competitividade, que tanto tem andado arredada do discurso político e mesmo do dos agentes económicos desde o modelo de Porter, é de facto um despertar de mentalidades. O desenvolvimento de Portugal passa pelo fabrico de produtos que interessem ao mundo, que cativem a procura externa. Não podemos continuar a importar produtos e a endividarmo-nos eternamente sem contrapartidas. Não podemos contar apenas com o turismo como as ilhas Seychelles. O Estado pouco mais pode fazer actualmente do que melhorar a cobrança de impostos ou cortar nesta ou naquela despesa pública. São as empresas que devem impulsionar um movimento positivo e virtuoso de criação de riqueza, e usar a criatividade para ultrapassar em quota de mercado os nossos concorrentes externos, através de produtos e serviços que transformem o nosso país num sinónimo de prestígio e admiração. O bem-estar dos trabalhadores virá por acréscimo e haverá finalmente uma sensação de contentamento e orgulho nacional em Portugal, a condizer aliás com o nosso clima.

segunda-feira, setembro 27, 2004

Imagens


Hoje decidi apresentar uma imagem do local onde vivo. Serve ao mesmo tempo de teste ao blog e de revelação de um pouco de mim. Junta-se, portanto, o útil ao agradável. Posted by Hello

domingo, julho 11, 2004

Tempo rápido, vida curta

Por vezes a sensação é que o tempo passa rápido demais. Na minha opinião para vivermos em plenitude o dia deveria ter no mínimo 40 horas. Já para não falar de mais dinheiro para gastar, mas esse é um assunto mais melindroso.

O facto é não tendo escrito cá há algum tempo o país e o mundo parecem outros. Nas Europeias os socialistas obtiveram a mais elevada maioria de sempre, mas o cabeça de lista Sousa Franco perdeu a vida em plena campanha eleitoral, algo inédito que deixou o país estupefacto. As atenções viraram-se então para o Rock In Rio, espectáculo que contou com algumas celebridades de já longa data, como Sting, Peter Gabriel ou Metallica, algumas mais recentes como os Foo Fighters ou a Britney Spears. Penso que o facto de se convidar mais estas personalidades do passado tem a ver com o facto de a música já não ser o que era, com algumas honrosas excepções. Depois da explosão de criatividade que rolou entre os anos 50 e 80, passou-se por um período de revolução no início dos anos 90 com o grunge e a reinvenção do rock como um veículo de comunicação para uma geração que se sentia menosprezada, inútil e sem perspectivas. Depois da febre Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, entre outros, partiu-se para uma viagem musical em que se tornou mais difícil (e se calhar mais compensador) encontrar boas bandas. A música mainstream é decepcionantemente pobre com a MTV a passar hip hop ultrapassado com samples de músicas antigas. É tanta a falta de originalidade, que se vêem obrigados a ir buscar sons que foram sucessos há anos atrás. Mas felizmente tem havido excepções e bandas como Radiohead, Verve/Richard Ashcroft, Blur, Cold Play, Filter fazem-me acreditar que ainda há esperança.

Depois o Euro 2004. Num país onde o futebol é rei em cada café, em cada casa e até em cada local de trabalho, eu não sou grande apreciador de futebol. Os meus colegas masculinos vão falando nas novas contratações, discutindo lances e substituições e fico a ouvir as suas ideias. Eu tento entender essas conversas como algo para preencher um vazio de ideias, não como um assunto em si. Não passaria pela cabeça tentar saber o que o Pinto da Costa estava a pensar quando contratou os jogadores para a próxima época. Mas a realidade do país é esta e não se pode alterá-la, pelo menos a curto prazo, e por a única solução é a adaptação. Quanto ao Euro em si, foi um verdadeiro caso de 'eu sou o alfa e o ómega'. Literalmente, um início e final à grega. Com uma primeira decepção, a seguir um crescendo de emoções, como no concurso 'Quem Quer Ser Milionário', com festejos no final de cada jogo, como se o país inteiro tivesse ganho o totoloto (e que bom seria se tal acontecesse), e uma decepção no final. Mas este Euro 2004 teve um mérito inegável. Fomos elogiados por ter organizado o melhor Euro de sempre. Ficámos a gostar mais de nós próprios, foi como se estivéssemos a seguir um manual de auto-estima - concorremos e ganhamos a organização, e perante uma UEFA desconfiada, terminamos os estádios a tempo; participamos e apesar de não termos ganho a final, houve sobretudo um jogo, com a Inglaterra, em que se sentiu uma verdadeira união entre os jogadores, e também entre os jogadores e o público. Vai ser inesquecível aquela imagem dos barcos a seguirem o autocarro da selecção ao longo da Ponte Vasco da Gama. Provamos que quando queremos conseguimos ser tão bons ou melhores que franceses, alemães ou qualquer outro povo do mundo. E isso é de sobremaneira importante.

Finalmente a reviravolta no panorama político português. Durão Barroso faz o que todos os portugueses com bom senso e salário insuficiente deveriam fazer, emigrou! Pois sigamos o cherne! Jorge Sampaio viu-se com a maior batata quente da sua vida na mão e tomou a decisão mais cómoda e a meu ver mais acertada. Portugal tem tido governações algo controversas, com alguns pontos positivos mas muitos pontos negativos. Toda a gente sabe, ou devia saber, que o problema principal do país é a falta de uma vontade nacional comum de desenvolvimento do país. Há demasiada corrupção, amizades, cunhas, interesses, economia informal, trabalho precário, maus serviços públicos, péssimos exemplos da parte de políticos. Isto não ajuda um país a desenvolver-se. Apenas ajuda a alguns portugueses já 'desenvolvidos' a enriquecerem ainda mais.

E assim o tempo passa. Rápido. Prometo que vou tirar algum tempo para falar de mim e dos meus objectivos para a minha vida. Para ser muito concreto penso que não gozo muito a vida. Vivo pouco, talvez não exclusivamente por minha causa, mas posso, e vou, tentar mudar algumas coisas.

P.S.: Tenho sérias dúvidas que alguém sequer aceda a este blog, e também não o tenho publicitado, mas se alguém o lê, esteja à vontade para enviar um comentário ou um e-mail. É sempre bom saber que a nossa opinião é escutada.

segunda-feira, junho 07, 2004

A democracia deixa-me grego, como Péricles

Temos eleições! Que bom, vamos aproveitar esta grande vantagem da democracia que é escolhermos entre várias pessoas que não conhecemos de lado nenhum para nos representar na Europa! E a campanha tem sido excelente, motivando como nunca as pessoas a irem... para a praia, ou então a conhecerem um pouco melhor o nosso país vizinho, a começar pela bela arquitectura numérica dos postos de combustíveis. Ainda não decidi, mas provavelmente não irei votar. A guerrilha entre partidos está a atingir proporções absolutamente ridículas.

Um exemplo: António Costa, do PS, afirmou-se chocado com o facto de Miguel Portas não apoiar António Vitorino numa hipotética eleição para a Comissão Europeia. Eu pessoalmente penso que António Vitorino tem todo o mérito e que quando emite a sua opinião as pessoas ouvem-no (fica só a dúvida se o conseguem ver). Agora, eu é que fico chocado como nesta campanha eleitoral a única coisa de que os partidos falam... é de outros partidos! Praticamente não ouço falar da Europa, das consequências do alargamento, da preservação dos nossos interesses, na protecção da nossa agricultura, das nossas pescas, do Plano de Estabilidade e Crescimento, que é só para alguns. Há dias o jornalista José Rodrigues dos Santos teve de arrancar a ferros uma resposta do Miguel Portas, com um inequívoco 'Se for eleito, o que vai lá fazer [ao Parlamento Europeu]?' O ódio interior está de tal forma instalado que as pessoas andam cegas a pensar no melhor contra-ataque à última provocação do adversário. E a Europa, meu caro senhor, esqueceu-se?

Mas afinal para que precisamos destes políticos? Partidos de trazer por casa apenas para dizer que temos uma democracia? Precisa-se outro sistema. Não uma anarquia, isso seria o fim da civilização, mas antes a 'ditadura da competência'. Quem nos governa tem de ter competência em todas as suas áreas de actuação. Não podem ficar quatro anos no governo a asneirar só porque têm maioria absoluta. Se fosse numa empresa privada, um funcionário ou uma equipa que erram com frequência ou criam um tal mau-estar que colocam em causa a existência da própria empresa não ficariam nem uma semana! Um governo deverá entrar à experiência e funcionar através de contratos a termo ad eternum. Na campanha, que poderá durar um mês, apresenta um projecto específico, não genérico, com objectivos concretos a cumprir. Ao fim de 6 meses será avaliado pela população, não por meras cruzinhas à frente do símbolo do partido mas por um inquérito sobre as soluções que o país necessita e os objectivos que foram cumpridos. Caso reprovasse, rua! E venha outra campanha. Porque um governo não é mais que a equipa executiva de um país, novamente usando a comparação empresarial. Se não é capaz de resolver os problemas, por mais difíceis e estruturais que se apresentem, não serve e tem de dar lugar a quem os saiba resolver. E quer o Durão um mandato ainda maior que quatro anos, imaginem!

Tudo isto é uma solução de recurso. Uma democracia verdadeira implicava que eu mandasse no país, juntamente e com a mesma força que o meu vizinho, a minha tia solteira, o varredor de rua, o Belmiro de Azevedo, o vagabundo que dorme nas soleiras, e até o José Castel-Branco. É utópico. Como afirmei no post anterior temos que compatibilizar interesses. É a liberdade de cada um que termina onde começa a do outro. Não somos verdadeiramente livres. Apenas podemos sonhar que possa existir alguma espécie de perfeição que nos una a todos sem haver alguém que se sinta a perder. É só um sonho. Mas é do sonho que tudo nasce.

domingo, junho 06, 2004

(In)compreensões

Por vezes temos um flash sobre o que realmente podia mudar para melhor na nossa sociedade. A nossa dificuldade em compreendermos o ponto de vista uns dos outros é evidente, é difícil e se calhar desagradável colocamo-nos na pele das outras pessoas.

Quem conduz quer ter o mínimo de passadeiras e de semáforos no seu caminho, queixa-se, diz mal da vida e muitas vezes até passa no limite ou mesmo no vermelho. Os peões, por sua vez, querem atravessar no momento em que chegam à estrada mesmo que não haja passadeira, e se houver, começam logo a atravessá-la, como se os automobilistas pudessem parar naquele instante, obrigando-os a paragens mais ou menos bruscas, facilmente evitáveis com um pouco de calma. Quando começou a existir circulação automóvel e as estradas tiveram de ser adaptadas à nova realidade, as passagens para peões surgiram de uma necessidade óbvia de compatibilizar interesses entre o automobilista que circula e o peão que quer atravessar. E qualquer um deles tem de ceder algo, o automobilista é obrigado a parar na passadeira, enquanto que o peão tem de se deslocar até à passadeira, em vez de atravessar onde lhe dá mais jeito. Nenhum deles fica completamente 'satisfeito'.

Este cenário de automobilista vs. peão pode facilmente extrapolar-se a todos os aspectos da sociedade. É muito difícil entender a posição do outro. Quando se vê alguém no hospital, ou alguém que perdeu o emprego ou o cônjuge, podemos dar uma palavra de consolo mas no fundo damos graças por não nos encontrarmos na mesma situação. Por outro lado, é fácil pensar de certas atitudes que assistimos como irracionais, comentando 'é tão estranho', 'o que é que lhe deu' ou 'não deve estar bom da cabeça', quando o facto é que existe um razão por detrás de qualquer comportamento ou reacção. E hoje em dia, no meio de todas as exigências de sucesso, da necessidade de ter a melhor aparência, de viver no nosso grupo fechado de amizades, vamo-nos afastando de quem não tem os mesmos interesses ou necessidades que nós temos e cada vez compreendemos menos os outros. E surgem os mal-entendidos, não percebemos as intenções dos outros, reagimos com demasiada agressividade perante alguém que não tem más intenções ou reagimos com total abertura a quem só nos quer enganar. Eu sei que não tinha muita piada se todos conseguíssemos ler o pensamentos uns dos outros mas em certas alturas poderia ser crucial alguma forma de telepatia. Enquanto essa transmissão de pensamentos não for possível, tentemos pelo menos ser mais compreensivos e ter um pouco de paciência com os que nos rodeiam. Mas a verdade é que a incompreensão e os mal-entendidos são dos principais problemas que assolam a humanidade.

Deixo-vos com esta frase tirada da minha canção preferida dos Beatles: "Living is easy with eyes closed, misunderstanding all you see"

sexta-feira, junho 04, 2004

La Premiére

As minhas origens modestas e os acontecimentos que ocorreram durante a minha vida não fariam ninguém prever que eu chegasse aonde estou hoje. Foi a sorte de ser como eu sou. Mais duro que a vida. Superior à realidade. Não é que ligue ao reducionismo numérico da idade, mas tendo atingido os trinta, sinto que ainda tenho uma imensidão de experiências para viver. Pretendo que este blog tenha alguma utilidade para mim e para todos. Porque sinto que a minha opinião é importante, assim como o feedback dos outros seis mil milhões de seres humanos. May the Force be with you. Peace & Love.