Alquimia / Go get it

Ser rico é talvez dos desejos mais consensuais desde que existe troca indirecta. Terá seguramente um significado diferente para cada um mas passa sempre por um certo sentido de liberação. Seja por acabar com dependências, compromissos e equilíbrios frágeis ou com as incertezas e dúvidas quanto ao futuro, seja porque permite realizar todos os sonhos e partir para a aventura sem restrições, ter muito dinheiro é visto não só como uma excelente solução meio para ultrapassar os inúmeros obstáculos que a vida nos vai colocando mas como a solução. Claro que se encontram muitas mentes tacanhas que são capazes de recorrer aos exemplos mais improváveis de casos de pessoas que, na posse de uma fortuna, a esbanjaram de uma forma ou de outra e ficaram arruinadas para justificar um profundo receio interior de mudança. Se eu vivesse sempre preocupado com o pior cenário possível fechava-me num caixão à espera da morte. Caso não confiássemos nas nossas próprias capacidades de lidar com as situações, viveríamos numa insegurança quase paralisante.
E como definir o que é ser rico, de que montantes se poderá estar a falar? Para muita gente, 1 ou 2 milhões de euros já será mais do que suficiente, dado que já garante, sem necessidade de outros rendimentos, a auto-subsistência para o resto da vida permitindo mesmo uma série de extravagâncias e luxos. Mas tendo em conta que há vivendas que ultrapassam esses valores e automóveis que andam próximo disso, e que possuir um jacto particular é um símbolo comum de status (mesmo quando alugar é muito mais rentável), pode-se dizer que um mínimo de 50 a 100 milhões de euros em dinheiro disponível (excluindo, portanto, bens) é uma boa fasquia para se considerar alguém como rico, sem margem para dúvidas.
Falta agora explorar qual a forma de lá chegar. Encontrar o caminho certo que conduz ao nosso objectivo é sempre difícil. É o que distingue entre os milhões de pessoas que têm ideias e projectos e a meia dúzia que os concretiza. Então como enriquecer, excluindo os casos atípicos de chorudas heranças e prémios de jogos? Existem vários livros no mercado que abordam o tema versando quer o sucesso na carreira quer o triunfo no mundo empresarial como meio de também ser bem sucedido financeiramente. Entre os dois mais recentes best-sellers, apreciei mais Como Enriquecer de Donald Trump em relação a Vencer de Jack Welch. Trump tem uma exposição mais pragmática, propõe um conjunto de regras que fazem sentido e são de fácil aplicação na vida real e, fora a sua paranóia com os apertos de mão, seria alguém com quem não me importaria de trabalhar. Já Welch, sobejamente conhecido pela sua brilhante actuação como gestor da General Electric é mais uma pessoa de crenças, ligeiramente dogmático, e mesmo tendo boas ideias que de facto resultam, por vezes não explica claramente os fundamentos que servem de base ao seu raciocínio. No entanto, ambos são óptimos livros que apresentam conselhos bem úteis em qualquer circunstância. Estes autores centram muito as atenções na gestão de empresas, demonstrando a importância de, enquanto empresários, nos devemos rodear das pessoas certas, saber reconhecer um bom negócio e atrair as melhores parcerias comerciais. Acontece que quem quer ser rico não quer, necessariamente, criar uma empresa.
Desta feita restam duas hipóteses – poupar e/ou investir. Poupar parece soar mal nos dias que correm. Todos querem a sua ‘máquina’ com GPS e DVD, o último grito em telemóveis, a viagem às Caraíbas ou a roupa de marca. Quem assistiu à evolução do ‘temos de juntar para um carro’ e do ‘tenho x a render no banco’ dos anos 80 para o aparente desafogo financeiro actual viu um país a virar do avesso. Ir contra a corrente e controlar os gastos, abrindo lugar a alguma poupança é crucial para obter algum conforto num futuro cada vez mais ameaçador. Para quem pensar que mais vale usufruir de uma pequena fortuna aos 50 anos do que nunca, é possível, com disciplina e alguma visão de investimento amealhar um montante razoável. Supondo que alguém hoje com 30 começa a poupar 150 € mensais, aumentando anualmente este montante de acordo com a inflação e investindo este valor numa aplicação que renda 10% anuais (o que não é difícil com um pouco de aconselhamento a nível de acções e fundos e um acompanhamento constante do investimento) com capitalização de juros, chega-se aos 50 com mais de 100.000 €! Quem investe directamente em acções e sabe o que faz pode enriquecer ainda mais rapidamente, nomeadamente pela aquisição no momento certo (e venda também no momento certo) de títulos de empresas de forte crescimento e sólida situação financeira.
A propósito desta questão, não queria deixar de mencionar a forma cada vez mais descarada com que os bancos encontram forma de tentar enganar os pacóvios apresentando produtos que parecem excelentes mas que não passam de um presente envenenado. Temos, por exemplo, o caso do BES a oferecer 6% a 3 meses, 6% anuais entenda-se, como se isso fosse uma aplicação sem paralelo no panorama actual. Só para ver o ridículo da proposta que apresentam, eu investi recentemente numa acção que valorizou 8% num só dia! Claro que isto muito dificilmente poderia acontecer na anémica bolsa portuguesa. Os anúncios dos bancos são, em geral, insípidos e desinteressantes, tentativas patéticas de demonstração de algum sentido de humor mas sempre agrilhoados a uma necessidade de manter uma certa imagem de instituição respeitável. São todavia entidades que há muito perderam a forte credibilidade que ainda julgam ter, pelo menos junto dos clientes. Filmar alguns sketches do atendimento nos balcões por esse país fora teria certamente mais piada que o novo programa do Gato Fedorento. Clientes descontentes e agastados com as comissões cobradas sem motivo, os arredondamentos nas taxas de juro, promessas de spreads que afinal só vigoram por um curto período de tempo e as constantes cláusulas e excepções que tudo justificam surgem irados ou até aos gritos com os pobres funcionários apanhados no meio do fogo cruzado. Os lucros mirabolantes, as taxas reduzidíssimas de imposto efectivamente pago e as ameaças de cobrar comissões até pelas operações em ATM, um dos processos que mais permitiu aos bancos reduzir os gastos com o pessoal são verdadeiros insultos à inteligência num país financeiramente oprimido. Agora sentem-se vitimizados pelas alterações que o governo pretende (finalmente) introduzir no regime fiscal aplicado ao sector bancário e ponderam mesmo agravar o custo do dinheiro. Perante este chorrilho de indecências, penso que urge a necessidade de criação de uma associação nacional de clientes que defenda os interesses dos associados junto da banca para que cada cliente individual possa fazer ouvir a sua voz quando por algum motivo se sentir lesado por qualquer política comercial menos transparente.
Ser ambicioso não significa querer ser mais esperto que ninguém, é tomar as rédeas da nossa própria vida, sem hesitações ou complexos, tendo por fundo a lúcida percepção de que o nosso tempo é curto e que se queremos de facto gozar todos os prazeres que este planeta nos pode proporcionar, quanto mais livres de espartilhos financeiros, melhor. Não concebo outra forma de viver senão no constante auto-aperfeiçoamento, movendo-nos perante a sociedade em partes iguais de estilo e substância, aplicando o nosso talento em algo, seja o que for, que nos faça sentir completamente integrados e unos com os nossos objectivos. Só nesta dinâmica, um misto de segurança, tranquilidade, ousadia e persistência podemos atingir o entusiasmo e a joie de vivre, o estado máximo de plenitude que o nosso estatuto de ser humano nos concede.

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