quinta-feira, novembro 17, 2005

A solução para a crise de "vocações" (e para todas as outras crises também)



O segundo motivo pelo qual adorei o filme 'O Crime do Padre Amaro' foram as espectaculares panorâmicas de Lisboa. Aconselho vivamente esta adaptação da obra de Eça, e tenho a certeza que se o escritor fosse vivo aprovaria todo o enredo e iria querer conhecer alguns dos protagonistas para lhes dar as felicitações pelo hmm... empenho que demonstraram nos seus papéis.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Vencer (?)


Exemplos de sucesso apresentam vários factores em comum: Uma atitude perante a vida caracterizada por uma visão muito concreta dos objectivos que pretendem atingir, e o correspondente percurso a seguir; encaram cada obstáculo como uma oportunidade e não como uma ameaça; perseveram, levantam-se se caem, celebram as vitórias, aprendem com as derrotas. A estas condicionantes endógenas coadjuva um ambiente favorável ao desenvolvimento pessoal, onde o meio social e familiar envolvente é decisivo, fornecendo um apoio fundamental no caminho conducente àqueles objectivos traçados. Este apoio configura variadas vertentes, desde logo uma herança cultural que promove a integração do futuro adulto na sociedade, iniciando uma útil rede de conhecimentos pessoais, bem como a disponibilidade dos recursos financeiros necessários à formação e aos primeiros passos na vida profissional, seja numa perspectiva da concretização de uma projecto próprio seja em termos de gestão de carreira em organizações privadas ou públicas.

A realidade é que a rara conjugação destes factores reduzem em muito as possibilidades do comum dos mortais de dizer com naturalidade que a sua vida é um constante e estimulante desafio. Muitos enganam-se a si próprios, vendo algo de muito positivo na sua vida, mas quando esprememos o conteúdo da sua existência, verifica-se que o que atingiram não foi nada de memorável. Outros parecem conformados com a sua sorte, mas não acredito que estejam verdadeiramente satisfeitos tal como estão, pois não é da natureza do ser humano ter a sensação de satisfação (quando muito é demasiado efémera para sequer se ter em consideração).

As boas notícias são que mesmo não nascendo envolvido em todos os ingredientes do êxito, é possível alterar a situação e construir um castelo a partir da areia de um deserto. As más notícias são que as teias negativas que nos enredam podem ser demasiado fortes para nos conseguirmos libertar delas. O que nunca deve servir de justificação para não nos aventurarmos a chegar aonde queremos.

Em França, as tensões sociais ascenderam a um ponto de ebulição. Nada de novo se observarmos a História, mas uma particularidade emerge desta situação, algo que só poderia acontecer nos dias que correm. A negação do direito ao trabalho é das privações que mais agride a dignidade humana. Ninguém gosta de se sentir a mais. A globalização, as constantes fusões e aquisições, as deslocalizações de empresas países com custo laboral mais reduzido prendou-nos com bens de consumo cada vez mais atractivos e acessíveis e amaldiçoou-nos com uma legião de pessoas sem ocupação, à margem, desiludidas e em certos casos extremos a enveredar pela criminalidade. As grandes empresas, sempre focadas no lucro, deverão ter a noção que, quando despedem centenas ou milhares de pessoas (ou inversamente, não criando postos de trabalho) não vivem em ilhas isoladas. Tudo afecta tudo e todos afectam todos. As crises sociais são perigosas, e podem não ficar apenas por carros destruídos. Todo este bem elaborado sistema, toda esta delicada relação de interesses, toda a estabilidade e o mundo tal como o conhecemos pode ruir como um castelo de cartas num curto espaço de tempo. Observando com atenção o que se passou em Nova Orleães, facilmente se chega à conclusão que apesar de toda a evolução civilizacional o homem pode voltar à condição de besta numa questão de dias. Note-se que apenas citei duas situações e ambas ocorreram nos denominados países desenvolvidos.

Recentemente assisti a um documentário sobre a forte quebra da natalidade no caso específico da Alemanha, embora se trate de uma situação recorrente em toda a Europa. Apesar dos elevados custos da reunificação, a Alemanha é dos maiores exportadores mundiais e goza de uma elevada prosperidade económica. Os seus habitantes usufruem de um índice de conforto e poder de compra de topo de tabela e no entanto a fraca natalidade assume proporções preocupantes. Maternidades e escolas fecham por falta de utentes, praticamente não se vislumbram crianças na rua. Famílias com dois ou mais filhos são consideradas impopulares e são colocadas de parte por amigos e conhecidos em convívios e acontecimentos sociais. O que se passa é que para se poder dar a uma criança todas as hipóteses se singrar numa sociedade em que a exigência do mercado de trabalho e a competitividade extravasaram todos os limites do imaginável implica uma dedicação e um esforço financeiro tal que desanima os jovens casais de ousarem criar família, preferindo antes seguir uma carreira aliciante e viver a vida livre e hedonisticamente em vez de torná-la um indigesto sacrifício.

Um estudo científico revelou que os monges tibetanos são as pessoas mais felizes à face da Terra. Todavia, praticamente não têm posses e levam uma vida simples e humilde. É curioso como os anos passam e o tema Imagine de John Lennon se mantém sempre actual.