sexta-feira, fevereiro 25, 2005

O melhor parque de diversões

Apetece-me escrever sobre sexo, mas ao mesmo tempo penso que nada há a dizer pois é na actividade sexual que tudo se sente, e nada há a descrever depois, nada que palavras possam exprimir. É algo fascinantemente peculiar porque é diferente de toda a experiência intelectual que nos rodeia no dia-a-dia – o raciocínio, a argumentação, ou mesmo meras conversas de circunstância estimulam e alteram a nossa perspectiva das coisas mas apenas o cérebro se envolve. Na relação sexual, todo o nosso ser físico, o animal interior talvez, revela-se como se existe uma libertação da nossa essência enquanto ser vivo. A minha primeira relação como que completou o meu conhecimento de mim próprio, e ao mesmo tempo iniciou um novo ciclo da minha vida, como se passasse a ter uma nova visão do mundo. Nem fotografias nem filmes alguma vez me levaram a uma satisfação remotamente semelhante a algo real; preciso da sensação, da proximidade, do contacto. E depois, segue-se o instinto. “The grabbing hands / grab all they can / all for themselves / after all”.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Estilhacemos limites, provemos o que valemos

Em véspera de eleições mais uma vez nos encontramos, desta feita com um sabor artificial, por via de uma decisão presidencial justificada com os motivos mais subjectivos possíveis; aquela espécie de argumentos que tanto funcionam contra como a favor. Mas não é meu hábito olhar para trás.

Atendendo aos gravíssimos problemas estruturais do país, não creio que as alternativas existentes tenham até ao momento apresentado soluções de fundo, metas a atingir, enfim um caminho a seguir até ao sucesso, nem que se esteja no campo das hipóteses. A visão mais ambiciosa para Portugal que tive oportunidade de testemunhar foi a de Durão Barroso quando, ainda antes de conhecer o abismo orçamental deixado pelo guterrismo inconsequente, prometeu desenvolver estratégias que permitiriam levar esta nossa sociedade não apenas para fora da cauda da Europa mas para a linha da frente, elevando-nos a um nível de desenvolvimento económico equiparável ao padrão superior da humanidade.

Na presente campanha, como aliás é normal neste país em inúmeros aspectos, na falta de novidades avançam-se com questiúnculas insignificantes, como estas insinuações sobre Cavaco Silva apoiar uma maioria socialista, a entrada em cena do bobo da corte madeirense, e nada se ouviu em termos de ideias sólidas para o pais, por muito atento que se pudesse estar. Da Gabriela à Quinta das Celebridades este país ou, digamos, a grande massa populacional, vive nestas distracções nacionais, conveniente a alguns se calhar, mas por sua inteira responsabilidade. A facilidade com que as pessoas se enganam a si próprias é confrangedora. Após uma educação pobre e despida de cultura, culpando professores, que levam uma vida de humilhante nomadismo e desrespeito, copiando nos testes como forma de resolver os seus problemas de curto prazo, avançam para o mercado de trabalho sem elementares conhecimentos de inglês ou informática e tudo são dificuldades. Casando cedo e sem preparação, surgem os filhos e os problemas. Os magros rendimentos vão limitando a sua vida e os seus horizontes, assim como o dos filhos, numa evolução circular descendente. Sem espírito crítico, vão aceitando o que a televisão transmite, sem exigência, embrutecendo, e como o meio ambiente é similar, pensam “se todos são assim, então é porque está bem ser assim” e tudo vai continuando sem alterações. Vidas perdidas, nascer, crescer, reproduzir e morrer, como qualquer animal.

Nesta campanha, deixando de lado discursos sobre os direitos do proletariado e viagens em avião particular, algo se vai ouvindo, algumas ideias se definem, algumas, poucas, na frente socialista, ainda sem o benefício da dúvida tendo em conta a origem do líder, mas sobretudo de Santana Lopes. Algo sobre competitividade, a sobrepor à tão propalada produtividade que as confederações patronais tanto apreciam expor como um defeito dos trabalhadores portugueses, tentando-os inferiorizar, quando aquele conceito está muito mais nas mãos dos empresários do que dos nossos ‘preguiçosos’ trabalhadores, que no Luxemburgo representam um terço da força de trabalho. Luxemburgo que só tem um dos PIB per capita mais elevado do mundo. Mas a competitividade, que tanto tem andado arredada do discurso político e mesmo do dos agentes económicos desde o modelo de Porter, é de facto um despertar de mentalidades. O desenvolvimento de Portugal passa pelo fabrico de produtos que interessem ao mundo, que cativem a procura externa. Não podemos continuar a importar produtos e a endividarmo-nos eternamente sem contrapartidas. Não podemos contar apenas com o turismo como as ilhas Seychelles. O Estado pouco mais pode fazer actualmente do que melhorar a cobrança de impostos ou cortar nesta ou naquela despesa pública. São as empresas que devem impulsionar um movimento positivo e virtuoso de criação de riqueza, e usar a criatividade para ultrapassar em quota de mercado os nossos concorrentes externos, através de produtos e serviços que transformem o nosso país num sinónimo de prestígio e admiração. O bem-estar dos trabalhadores virá por acréscimo e haverá finalmente uma sensação de contentamento e orgulho nacional em Portugal, a condizer aliás com o nosso clima.