segunda-feira, junho 07, 2004

A democracia deixa-me grego, como Péricles

Temos eleições! Que bom, vamos aproveitar esta grande vantagem da democracia que é escolhermos entre várias pessoas que não conhecemos de lado nenhum para nos representar na Europa! E a campanha tem sido excelente, motivando como nunca as pessoas a irem... para a praia, ou então a conhecerem um pouco melhor o nosso país vizinho, a começar pela bela arquitectura numérica dos postos de combustíveis. Ainda não decidi, mas provavelmente não irei votar. A guerrilha entre partidos está a atingir proporções absolutamente ridículas.

Um exemplo: António Costa, do PS, afirmou-se chocado com o facto de Miguel Portas não apoiar António Vitorino numa hipotética eleição para a Comissão Europeia. Eu pessoalmente penso que António Vitorino tem todo o mérito e que quando emite a sua opinião as pessoas ouvem-no (fica só a dúvida se o conseguem ver). Agora, eu é que fico chocado como nesta campanha eleitoral a única coisa de que os partidos falam... é de outros partidos! Praticamente não ouço falar da Europa, das consequências do alargamento, da preservação dos nossos interesses, na protecção da nossa agricultura, das nossas pescas, do Plano de Estabilidade e Crescimento, que é só para alguns. Há dias o jornalista José Rodrigues dos Santos teve de arrancar a ferros uma resposta do Miguel Portas, com um inequívoco 'Se for eleito, o que vai lá fazer [ao Parlamento Europeu]?' O ódio interior está de tal forma instalado que as pessoas andam cegas a pensar no melhor contra-ataque à última provocação do adversário. E a Europa, meu caro senhor, esqueceu-se?

Mas afinal para que precisamos destes políticos? Partidos de trazer por casa apenas para dizer que temos uma democracia? Precisa-se outro sistema. Não uma anarquia, isso seria o fim da civilização, mas antes a 'ditadura da competência'. Quem nos governa tem de ter competência em todas as suas áreas de actuação. Não podem ficar quatro anos no governo a asneirar só porque têm maioria absoluta. Se fosse numa empresa privada, um funcionário ou uma equipa que erram com frequência ou criam um tal mau-estar que colocam em causa a existência da própria empresa não ficariam nem uma semana! Um governo deverá entrar à experiência e funcionar através de contratos a termo ad eternum. Na campanha, que poderá durar um mês, apresenta um projecto específico, não genérico, com objectivos concretos a cumprir. Ao fim de 6 meses será avaliado pela população, não por meras cruzinhas à frente do símbolo do partido mas por um inquérito sobre as soluções que o país necessita e os objectivos que foram cumpridos. Caso reprovasse, rua! E venha outra campanha. Porque um governo não é mais que a equipa executiva de um país, novamente usando a comparação empresarial. Se não é capaz de resolver os problemas, por mais difíceis e estruturais que se apresentem, não serve e tem de dar lugar a quem os saiba resolver. E quer o Durão um mandato ainda maior que quatro anos, imaginem!

Tudo isto é uma solução de recurso. Uma democracia verdadeira implicava que eu mandasse no país, juntamente e com a mesma força que o meu vizinho, a minha tia solteira, o varredor de rua, o Belmiro de Azevedo, o vagabundo que dorme nas soleiras, e até o José Castel-Branco. É utópico. Como afirmei no post anterior temos que compatibilizar interesses. É a liberdade de cada um que termina onde começa a do outro. Não somos verdadeiramente livres. Apenas podemos sonhar que possa existir alguma espécie de perfeição que nos una a todos sem haver alguém que se sinta a perder. É só um sonho. Mas é do sonho que tudo nasce.

domingo, junho 06, 2004

(In)compreensões

Por vezes temos um flash sobre o que realmente podia mudar para melhor na nossa sociedade. A nossa dificuldade em compreendermos o ponto de vista uns dos outros é evidente, é difícil e se calhar desagradável colocamo-nos na pele das outras pessoas.

Quem conduz quer ter o mínimo de passadeiras e de semáforos no seu caminho, queixa-se, diz mal da vida e muitas vezes até passa no limite ou mesmo no vermelho. Os peões, por sua vez, querem atravessar no momento em que chegam à estrada mesmo que não haja passadeira, e se houver, começam logo a atravessá-la, como se os automobilistas pudessem parar naquele instante, obrigando-os a paragens mais ou menos bruscas, facilmente evitáveis com um pouco de calma. Quando começou a existir circulação automóvel e as estradas tiveram de ser adaptadas à nova realidade, as passagens para peões surgiram de uma necessidade óbvia de compatibilizar interesses entre o automobilista que circula e o peão que quer atravessar. E qualquer um deles tem de ceder algo, o automobilista é obrigado a parar na passadeira, enquanto que o peão tem de se deslocar até à passadeira, em vez de atravessar onde lhe dá mais jeito. Nenhum deles fica completamente 'satisfeito'.

Este cenário de automobilista vs. peão pode facilmente extrapolar-se a todos os aspectos da sociedade. É muito difícil entender a posição do outro. Quando se vê alguém no hospital, ou alguém que perdeu o emprego ou o cônjuge, podemos dar uma palavra de consolo mas no fundo damos graças por não nos encontrarmos na mesma situação. Por outro lado, é fácil pensar de certas atitudes que assistimos como irracionais, comentando 'é tão estranho', 'o que é que lhe deu' ou 'não deve estar bom da cabeça', quando o facto é que existe um razão por detrás de qualquer comportamento ou reacção. E hoje em dia, no meio de todas as exigências de sucesso, da necessidade de ter a melhor aparência, de viver no nosso grupo fechado de amizades, vamo-nos afastando de quem não tem os mesmos interesses ou necessidades que nós temos e cada vez compreendemos menos os outros. E surgem os mal-entendidos, não percebemos as intenções dos outros, reagimos com demasiada agressividade perante alguém que não tem más intenções ou reagimos com total abertura a quem só nos quer enganar. Eu sei que não tinha muita piada se todos conseguíssemos ler o pensamentos uns dos outros mas em certas alturas poderia ser crucial alguma forma de telepatia. Enquanto essa transmissão de pensamentos não for possível, tentemos pelo menos ser mais compreensivos e ter um pouco de paciência com os que nos rodeiam. Mas a verdade é que a incompreensão e os mal-entendidos são dos principais problemas que assolam a humanidade.

Deixo-vos com esta frase tirada da minha canção preferida dos Beatles: "Living is easy with eyes closed, misunderstanding all you see"

sexta-feira, junho 04, 2004

La Premiére

As minhas origens modestas e os acontecimentos que ocorreram durante a minha vida não fariam ninguém prever que eu chegasse aonde estou hoje. Foi a sorte de ser como eu sou. Mais duro que a vida. Superior à realidade. Não é que ligue ao reducionismo numérico da idade, mas tendo atingido os trinta, sinto que ainda tenho uma imensidão de experiências para viver. Pretendo que este blog tenha alguma utilidade para mim e para todos. Porque sinto que a minha opinião é importante, assim como o feedback dos outros seis mil milhões de seres humanos. May the Force be with you. Peace & Love.