Vacine-se

Raiva, fúria e desejo de vingança consomem demasiada energia e torna as pessoas cegas, apenas se prejudicando a si próprias. Que o mundo é tudo menos justo, que na vida facilmente se acumulam frustrações e sensações de insatisfação e se encontram situações que nunca deveriam existir, todos sabemos, mas cada um de nós deve ser parte da
solução e não do problema. Senão de que valem os milhões de anos de evolução de nos conduziram de meros seres guiados pelo instinto a uma forma de vida inteligente e com vontade própria?
Zidane teve 18 anos de carreira enquanto atleta profissional e cedo ascendeu ao mais elevado nível de competição. No seu anunciado último jogo, num culminar perfeito de êxitos ao participar na final de um Campeonato do Mundo, porque supostamente ouviu uns insultos à sua família decide agredir um jogador da equipa adversária? Como jogador de futebol, não terá ele ouvido mais injúrias e linguagem de vão de escada que qualquer um? Um insulto à mãe e irmã de alguém só magoaria realmente se de facto quem insulta as conhecesse e soubesse algo de pessoal, mas tenho a certeza que Materazzi conhece tão bem a mãe e irmã de Zidane como eu. Zidane diz que não se arrepende e acho bem, porque eu também nunca me arrependo de nada – o que cada um decide está decidido, de acordo com o seu livre-arbítrio e bom senso – mas ele devia ter um treino mental que nunca o levasse a chegar àquele ponto.
A violência física só é justificável num contexto de auto-defesa e apenas na medida do indispensável. É tão fácil responder a um insulto e sair da situação de forma airosa, seja fazendo um comentário lateral ou indirecto que deixe o interlocutor confuso seja gozando com as palavras que ele utiliza, que só vem confirmar a minha teoria sobre a relação inversamente proporcional entre o QI e a queda para o desporto.
Highway to hell

Conduzir em Portugal já foi uma actividade de maior risco do que é hoje, mas ainda custa a assimilar a existência de três ou quatro mortes diárias por acidentes de automóvel, a que acrescem ainda os inválidos e as vítimas “colaterais” como a família e os amigos, já para não falar em custos hospitalares e laborais que acabam por se reflectir na vida de todos nós. Dado que a técnica de condução de um automóvel é bastante simples e tendo em conta que se trata de um bem que neste país implica um forte investimento, surpreende esta elevada sinistralidade, pelo menos para alguém que analisa a situação do exterior. Claro que quem circula diariamente nas estradas portuguesas e está minimamente atento à condução que se pratica sabe perfeitamente quais os motivos que levam a esta realidade.
De seguida, com base nas situações que tenho oportunidade de testemunhar enquanto condutor, apresento uma classificação dos condutores por atitudes, embora muitas vezes se sobreponham várias em simultâneo. Assim temos:
- Os “Colas”, raça conhecida por gostar de se aproximar a menos de um metro do veículo que segue à sua frente, mesmo que seja em plena auto-estrada; neste caso apresentam a variante de sinalizarem com luzes caso o condutor da frente esteja na faixa esquerda. Comportamento manifestamente irritante, ao ponto de assistir uma vez a uma cena em que o condutor da frente travou a fundo para saber se o veículo de trás se safava de colisão certa. Claro que esta tendência de circular demasiado próximo tem consequências, e mais tarde ou mais cedo haverá uma distracção e o inevitável embate. Também não são invulgares os choques em cadeia resultantes desta postura agressiva.
- Os “Cortantes”, para quem as linhas marcadas no pavimento não tem qualquer significado. Assim, em curva, mesmo naquelas de reduzida visibilidade, invadem sem apelo nem agravo faixa alheia obrigando os condutores que queiram preservar o seu espelho e pintura a desviarem-se para a berma. Nas rotundas com mais de uma faixa, estes indígenas partem da direita, atravessam para a faixa central sem dizer água vai e na saída que desejam tomar também não dizem água vem retirando-se da faixa central como se a linha intermitente não indicasse separação de faixas. Ironia do destino, os acidentes geralmente acontecem quando um “Cortante” encontra outro, o que não deixa de ter um sabor a justiça poética.
- Os “Interceptantes”, que pela sua atitude de interferência na condução de quem é “interceptado” são dos que pessoalmente mais abomino. A sua actuação consiste em ultrapassar e colocarem-se à nossa frente obrigando-nos a abrandar ou até a travar sob pena de embate. Em auto-estrada, sou um condutor que procura manter uma distância de segurança relativamente ao veículo da frente, mas de vez em quando aparecem estas melgas com imenso espaço para voltarem à faixa direita mas que depois de ultrapassarem se colocam poucos metros à frente na faixa em que seguimos, como que a transmitir, infantilmente, “estás a ver, eu ultrapassei-te”. O cúmulo da estupidez acontece quando somos ultrapassados de um forma quase forçada porque se nota que estes condutores vão em extrema aceleração para logo a seguir obrigarem-nos a abrandar porque vão virar num cruzamento ou garagem.
- Os “Fangios”, cujo objectivo único e final é acelerarem o seu veículo até ao máximo da sua potência (e do seu gasto de combustível) no espaço livre à sua frente. O óbvio problema para estes “Alonso Wannabes” é que a estrada não é só deles. Pois que acelerem a velocidades de perder a carta à vontade desde que ninguém esteja por perto. Assim, se se despistarem, também não prejudicam outros condutores que nada tem a ver com as suas manias. A propósito desta questão, é impressionante o número de pessoas que arriscam conduzir sem carta, seja porque foi apreendida por excesso de velocidade seja porque nunca a tiveram. Não saberão elas que poderão ir presas? E que mesmo que a pena seja suspensa, ficam com cadastro? Qualquer uma dessas hipóteses parece-me suficientemente repulsiva, mas pelos vistos não o será para muitos.
- Os “Medrosos”, que travam excessivamente em curva ou em descidas. Se for um veículo de gama baixa, até se poderá aceitar alguma precaução, mas quando alguém num BMW receia capotar numa curva média só porque vai a 60 km/h isso já é medo patológico. Por outro lado, muita gente parece não saber que o automóvel também abranda apenas por se retirar o pé do acelerador, e esta opção de ‘travar com o motor’ é benéfica porque reduz o consumo e desgaste do travão.
- Os “Abusadores”. Trata-se de um fenómeno recente, resultado do forte crescimento do parque automóvel, o que pode implicar uma espera prolongada nos cruzamentos sem semáforos em hora de ponta. O facto de compreender não significa que ache justificável que alguém que sai de um cruzamento sem prioridade se plante à nossa frente para entrar na faixa contrária, se não foi dado consentimento prévio.
- Os “Agentes Secretos”, que nunca sinalizam as suas manobras. O habitual é travarem de repente e pararem em segunda fila (mesmo com estacionamento disponível) ou virarem no próximo cruzamento. Normalmente ligam o pisca mas já depois da asneira consumada.
Todas estas situações aplicam-se, felizmente, a uma minoria de condutores, geralmente os mais jovens, e gostaria de salientar que estas críticas são apontadas aos actos de certas pessoas enquanto condutoras e não à sua personalidade intrínseca.
Julgo que evitar o acidente não é difícil e se existe algum segredo ele é circular mantendo uma distância de segurança lateral e frontal razoável relativamente aos outros veículos e ter um olho nos cruzamentos e em todas as saídas por onde é possível passar um automóvel, mesmo que se tenha prioridade. Também é bom ser condescendente de vez em quando mesmo que se tem razão. A condução deve ter um certo ritmo e seguir uma trajectória definida mas deve ser efectuada de forma suave, sem movimentos bruscos. Certas pessoas activas e dinâmicas, ou que querem mostrar que o são, gostam de reflectir as suas atitudes na estrada, conduzindo de forma agressiva, acelerando, ultrapassando e travando excessivamente, o que pode dar mau resultado. A estrada nada tem a ver com a vida nas empresas, exige cautela porque se tratam de vidas humanas e bens demasiado valiosos para se colocarem em risco.
Pessoalmente não tenho um acidente de minha responsabilidade há mais de cinco anos, e mesmo nessa altura, foi mais a consequência de ter de um automóvel com condições deficientes de segurança, nomeadamente a nível de travões e pneus, e de falta de técnica de condução em condições meteorológicas adversas do que propriamente distracção ou agressividade. Por outro lado, no início da minha carreira, dadas as circunstâncias existentes, apenas pude adquirir uma viatura usada, possivelmente com a quilometragem adulterada que não oferecia as condições de estabilidade adequadas e, enfim, num país onde os automóveis são tão caros, facilmente se cai num círculo vicioso de problemas mecânicos e gastos acrescidos que impedem a constituição de uma poupança para a eventual aquisição de carro novo, pelo que se tem de voltar a comprar usado, ter mais problemas e assim sucessivamente. Ultrapassadas questões monetárias, e com um maior conhecimento do estado de conservação dos automóveis e das marcas mais fiáveis, pude finalmente escolher uma viatura que me satisfaz plenamente e me permite conduzir ‘descansado’, sem pensar que posso ficar mal na próxima esquina.
Um palavra também para os Smart e outros veículos denominados de “citadinos”. Afinal o que define um veículo citadino? O facto de terem um comprimento menor acaba por não representar qualquer vantagem uma vez que no centro das cidades a maior parte dos lugares de estacionamento têm já um espaço pré-definido de cerca de 5 metros. A diferença nos consumos também não é significativa e um veículo de dimensões mais reduzidas só tem a perder em espaço, conforto e segurança. Custa a crer que a Mercedes foi patrocinar um automóvel ridículo como o Smart. Há quem os estacione na perpendicular, retirando espaço à faixa de rodagem e distorcendo a divisão dos lugares marcados de estacionamento. Outros circulam a 150 km/h ou mais com estas amostras de automóvel na auto-estrada. Caso necessitem de travar a fundo àquela velocidade, provavelmente o carro fará uma ou mais rotações sobre si próprio. Esperteza… saloia?
E porque para além de circular também é necessário estacionar, da mesma forma os comportamentos nem sempre são os mais correctos. Na minha opinião, os lugares de estacionamento deveriam ser desenhados na oblíqua, sempre que possível. Penso ser a forma mais segura e confortável para estacionar, e evita a necessidade de cuidado com os outros veículos à frente e atrás bem como os embates por abertura de portas no caso dos estacionamentos na perpendicular. Até sair se torna mais fácil, enfim, uma poupança de tempo que não é de descurar nos dias que correm. O desrespeito pelo estacionamento proibido é talvez a infracção mais frequente de todas, não sendo difícil observar ruas inteiras com imensos carros estacionados após o sinal que o proíbe. É que não só a questão da proibição por si só, são as vias que se estreitam e a circulação que é seriamente dificultada. No entanto, por qualquer obscura razão, a polícia raramente actua. Se um belo dia a autoridade de todo o país decidisse por cobro a esta epidemia as multas obtidas por essa via resolveriam possivelmente a questão do défice orçamental. E que dizer de quem estaciona em lugares reservados a deficientes? Eu costumava gracejar, comentando que até estavam bem estacionados, uma vez que tal atitude é um reflexo claro de algum tipo de deficiência. Mas é muito mais grave que isso, porque revela uma total falta de respeito pelo próximo e quem não respeita o próximo não merece viver neste planeta. Apetecia proceder como em alguns filmes, agarrando nesses condutores e interrogando-os num quarto escuro com uma luz apontada à cara sobre os motivos que os levaram a ocupar um lugar preparado para indivíduos com deficiências motoras e outras. Mas não vale a pena. A consciência não se injecta. Ou uma pessoa teve uma evolução social saudável ou não passa de uma criança egocêntrica em corpo de adulto.