quinta-feira, maio 12, 2005

Vive!

2005, ano de contagem intermédia da primeira década do milénio, revelou algumas novidades musicais realmente excitantes, contrariando a apatia dos últimos anos. A nível de singles pode-se já reunir uma selecção que incute energia e atitude positiva, algo raro num país que parece ter aderido em massa ao culto da tristeza e que se dedica a carpir os sonhos perdidos. Como diria alguém, eat this:

Moby – Lift Me Up
Franz Ferdinand – The Dark Of The Matinee
Chemical Brothers – Galvanize
Green Day – Boulevard Of Broken Dreams
Gwen Stefani – What You Waiting For
Outkast – Hey Ya
Kylie Minogue – I Believe In You
Evanescense – Missing
Scissor Sisters – Mary
Stereophonics – Dakota
Jennifer Lopez – Get Right
Coldplay – Speed Of Sound
Keane – This Is The Last Time
New Order - Krafty
U2 – Sometimes You Can’t Make It On Your Own
Jamie Cullum – Everlasting Love

quarta-feira, maio 11, 2005

O império contra-ataca

Em todos os campos a influência chinesa começa a manifestar-se no mundo. Já não são apenas os pequenos e desordenados bazares que florescem como cogumelos pelas cidades, agora a entrada nas economias ocidentais é feita pela força bruta dos preços esmagados, agora que o proteccionismo artificial atingiu a caducidade. Não há por isso lugar a paternalismos quando as indústrias têxteis e outras fortemente dependentes do factor trabalho vêem a sua clientela a diminuir. É adaptar ou morrer, agora que os chineses parecem apostados em nivelar o resto do mundo por baixo. Com uma força de trabalho que por natureza já é de baixo custo, os empresários chineses recorrem a truques baixos como o corte de regalias sociais e sobrecarregam os trabalhadores com horários excessivos.

O mundo desenvolvido parece, por isso, destinado a pagar um preço alto pelo seu desenvolvimento, com a deslocalização da produção para países com mão-de-obra menos onerosa, o consequente aumento do desemprego e o agravamento das convulsões sociais. De que serve ter produtos mais baratos se há mais pessoas sem emprego e o consumo diminui? Como sempre, a mão invisível do mercado originará um equilíbrio, mas a questão é se esse equilíbrio se enquadra num limiar de dignidade humana. Com a economia a funcionar cada vez mais a nível global, e com o poder económico a cair nas mãos de grupos cada vez mais poderosos, os trabalhadores passam a ser meros executantes de funções num organigrama gigante, sempre dispensáveis no caso de não atingirem os objectivos previstos, constantemente mensurados através de indicadores definidos numa qualquer folha Excel e com ínfimas hipóteses de progressão na carreira. A concorrência oriental agravará esta situação, na medida em que as empresas ocidentais se vão aproveitar da actual flexibilidade das relações laborais para reduzir ou encerrar unidades produtivas e movê-las para países com um factor trabalho significativamente menos oneroso. Paradoxalmente a tão elogiada flexibilidade laboral parece funcionar apenas num sentido, pois enquanto para a empresa só traz benefícios, em relação ao trabalhador a suposta perspectiva de encontrar novo e melhor emprego afigura-se como uma missão impossível, e segundo uma estatística recente, quem por qualquer motivo perde o seu emprego, vê o seu arduamente procurado novo posto de trabalho trazer-lhe uma remuneração inferior, traduzindo-se em perda de poder de compra, de qualidade de vida e, em última análise, infelicidade e frustração.

Os imensos Estados Unidos da América afundam-se na imensa dívida pública de 7,8 triliões (10^12) de dólares, mas se o Estado é ineficiente, George W. Bush avança para guerras de motivos duvidosos que implicam um enorme esforço financeiro e ainda assim mais de metade dos americanos elegem-no para um segundo mandato, então anda tudo muito satisfeito (leia-se iludido). A debilidade económica é, no entanto, evidente, e o superávite orçamental dos tempos dourados de Clinton não passa agora de uma boa recordação. Já o défice externo atingiu 618 biliões (10^9) de dólares, em grande parte devido ao significativo aumento das importações chinesas e do aumento do preço do petróleo. Esta situação não é sustentável a longo prazo, e basta que os principais financiadores percam a fé na capacidade regenerativa da economia americana que o dólar entrará em queda livre. A população americana ver-se-á então confrontada com crescentes taxas de juro dilacerando o consumo e o investimento. A avalanche não será restrita ao continente americano, Europa e Japão também sofrerão consequências. Agora que os chineses começam a perder o receio de deixar de fixar o yuan em relação ao dólar, inequívoca prova de confiança na sua própria economia, preparam-se para jogar um xadrez mais radical, e um braço-de-ferro com as grandes companhias americanas afigura-se inevitável. Os têxteis são apenas a ponta do iceberg. O arsenal da indústria automóvel chinesa é poderoso e em breve não ficaremos surpreendidos ao assistirmos à entrada no mercado de novos e baratos modelos. A seguir, tudo é possível - telemóveis, tecnologia de ponta, electrodomésticos, computadores, equipamento industrial. Tal como aconteceu com o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan mas agora numa escala bem superior à medida da sua imensa população de 1300 milhões de habitantes. O recente acordo com a Índia pode origem a uma zona de comércio livre que agrupa perto de 40% (!) da população mundial.

Ninguém pode ficar indiferente ao grande dragão do Oriente. Resta-nos aguardar que a abertura latente que a sociedade chinesa tem vindo a demonstrar se reflicta no regime político. A expressão 'democracia chinesa' tem de deixar de ser uma contradição em termos, porque o regime democrático é uma garantia de paz, boas relações internacionais, e ao permitir a expressão livre dos cidadãos e o diálogo entre os intervenientes sociais, abre o caminho para a melhoria das condições laborais, o que ironicamente poderá ser benéfico para o Ocidente, uma vez que os empresários chineses já não poderão fazer-se valer dos salários indignamente baixos para colocar produtos no mercado a preços arrasadores. Esta é a única visão optimista possível para o futuro da vida no planeta: Todo o mundo deverá atingir um patamar mínimo de desenvolvimento, através da eliminação das assimetrias e um ponto de equilíbrio entre interesses antagónicos deve ser atingido de forma que ninguém fique excessivamente prejudicado. Nessa altura a nossa espécie terá realmente alcançado a excelência.